quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Falácias e Futuro


Texto publicado no jornal Folha de São Paulo, em 03/12/14



Falácias e Futuro

Marco Antonio F. Milani Filho*

Falácia é um argumento falso, mas com a aparência de verdadeiro. Um discurso falacioso é, portanto, aquele que parece ser válido, mas contém uma ou mais inconsistências lógicas que invalidam o seu conteúdo. E neste agitado momento político, alguns argumentos que estão sendo amplamente disseminados nas redes sociais, veículos de comunicação de massa e em rodas de amigos merecem atenção, não somente pela demonstração da falta de racionalidade e ética discursiva para defender partidos, mas pelas consequências nocivas que provocam.
Há propostas totalitárias que pretendem se passar por democráticas e cujos autores usam argumentos falaciosos em suas falas para subverter a própria noção de democracia. Como é possível uma proposta democrática desprezar ou tentar calar à força aqueles que pensam de maneira diferente? É incoerente, a não ser que se use um discurso falacioso pelo qual se incuta a ideia de que determinado grupo represente a vontade do povo e ele agirá em seu nome e para o seu bem, assim quem for contra ele é inimigo do povo. Nesse tipo de discurso, quem ousar divergir ou tiver interesses contrários ao bom senso artificialmente fabricado pelos que se dizem representar a vontade popular, deixará de ser considerado um membro colaborador desta sociedade e não merecerá estar nela. Esse é o mesmo discurso de ódio pregado por alguns contra a classe média, por exemplo, a qual foi ardilosamente estereotipada como um grupo composto por indivíduos mesquinhos, preconceituosos e que são contra a melhoria das condições de vida dos mais pobres. Situação estranha, uma vez que, conforme os dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos, a classe média hoje ultrapassa os 54% da população, sem considerar as classes mais abastadas. Se mais da metade do povo está na classe média, repetir essa manifestação encolerizada é aviltar metade dos brasileiros.
Curioso é o fato de que muitos dos que destilam sua repulsa à classe média fazem parte dela ou de estratos superiores, mas querem ser vistos como seres distintos, pairando acima dos desvios de caráter que alegam que seus pais, amigos e familiares possuem. Supõem que o povo digno é composto pelos pobres. Repudiar a própria classe social seria algo como uma tentativa de purificação, não fosse o fato de que continuam usufruindo de todos os benefícios e conforto que a renda que têm acesso lhes proporciona.
O discurso de ódio promovido por esses grupos ilusoriamente democráticos também é aplicado para incitar tensões com relação a gênero, raça, origem etc. de maneira que somente suas propostas e posições sejam reconhecidas como benéficas e moralmente corretas, desqualificando opiniões divergentes. Essa desqualificação é feita, muitas vezes, denegrindo e ridicularizando os opositores, novamente para estereotipá-los e serem considerados figuras indesejadas à sociedade e sem direito à livre expressão. Onde já se viu moradores de bairros nobres terem o direito de se manifestarem! Eles que se manifestem em Miami! Uma mulher negra e nordestina que apoie propostas contrárias àquelas do partido que se arvora como defensor das minorias só pode ser uma traidora. Ela não faz mais parte do povo. Ou se é companheiro de luta ou se é inimigo. Lamentável situação gerada pelo maniqueísmo partidário, pois necessita dividir a sociedade entre oprimidos e opressores para poder pavimentar seu caminho ao poder em nome da justiça social.
A desonestidade intelectual faz com que se construam discursos sem a preocupação com a validade da argumentação dos debatedores, pois parte-se do princípio de que o mais importante não é se chegar na verdade e aprender reconhecendo erros, mas impor, seja como for, os próprios pontos de vista. A história é testemunha de inúmeras lutas fraticidas que eclodiram em nome da justiça social e provocaram milhões de mortes em várias regiões do mundo, assemelhando-se mais a expurgos rancorosos do que a efetivos projetos de aperfeiçoamento da sociedade.
A falácia argumentativa que camufla o totalitarismo é um problema real no Brasil, pois pode ser utilizada para induzir a formação de um pensamento hegemônico na sociedade, a fim de que seus idealizadores sejam reconhecidos como detentores de virtudes e tenham o apoio popular para usar a força para oprimir as vozes discordantes. É possível mudarmos essa tendência começando por nós mesmos, refletindo sobre a fundamentação dos discursos que estamos usando para defender posições. Ao invés de se criticar pessoas (falácia ad hominem) e ignorar os argumentos do atacado pela suposição de que provêm de uma fonte indigna, que se critiquem racionalmente os fatos e argumentos, para se testar a real consistência do próprio discurso.

* Economista. Pós-Doutor pela Universidade de Salamanca (Espanha). Professor da UNICAMP.

Texto disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/12/1556680-marco-antonio-f-milani-filho-falacias-e-futuro.shtml

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