domingo, 30 de março de 2014

31 de março de 1964: contra as visões maniqueístas

  

31 de março de 1964: contra as visões maniqueístas

Rodrigo Constantino

Entende-se aqueles que tentam, em esforço quase hercúleo, levantar o contexto da época do golpe de 1964 e mostrar o lado positivo da ação dos militares, que teriam evitado um golpe comunista do lado de lá. Afinal, a visão onipresente na imprensa, nas escolas, em todo lugar é de um maniqueísmo chocante, que pretende rescrever a história e pintar comunistas como democratas que foram vítimas do nada.

Por outro lado, tampouco devemos cair na tentação do maniqueísmo inverso, qual seja, colocar os militares como “salvadores da Pátria”, mergulhar num saudosismo absurdo de que tudo aquilo foi maravilhoso e fundamental para o país incluindo duas décadas de ditadura. Seria agir como os esquerdistas desonestos, só que com o sinal trocado.

Evitar tais visões maniqueístas é o grande desafio, que o jornalista José Maria Silva, no jornal Opção, consegue enfrentar com eficiência. Seu texto nos carrega para o contexto da época, mostra como há um duplo padrão de julgamento hoje, principalmente de uma esquerda que ignora os abusos cometidos pelo ditador Getúlio Vargas, enquanto tenta demonizar os militares, como se a ditadura de 20 anos fosse desde o começo o único objetivo do que se passou em 31 de março de 1964.

Nada mais falso. Esses revisionistas ignoram que os militares contaram com amplo apoio da imprensa, da classe média, de milhões de brasileiros preocupados, legitimamente, com a ameaça vermelha. Resgatar a verdade não interessa àqueles que pretendem apenas usar tais eventos distantes para sua propaganda política e ideológica, para posar de heróicos combatentes da ditadura pela democracia. Diz o autor:

As novas gerações foram e continuam sendo forçadas a pensar que os governos militares pós-64 são a síntese de tudo de ruim que aconteceu na história do Brasil e que nada houve pior do que isso. A se crer no tom horrorizado com que os formadores de opinião repetem a expressão “ditadura militar”, tem-se a im­pressão de que nem mesmo a escravidão se igualou em crueldade ao regime instaurado no País em 64. O regime militar tornou-se uma espécie de marco zero da iniquidade nacional, projetando sua sombra devastadora no passado e no futuro, como se fosse responsável retroativamente pelo extermínio dos índios pelos bandeirantes, a escravidão do negro pelo português e até, projetivamente, pelos escândalos de corrupção que continuam assolando a República.

A quem tal distorção histórica interessa? Por que pintar um terrorista que sonhava com o modelo ditatorial cubano para o Brasil, como Carlos Marighella, como um bravo guerreiro da liberdade? Por que fingir que as atrocidades de Getúlio Vargas, hoje respeitado e admirado por boa parte da esquerda, inclusive pelo ex-presidente Lula, nunca ocorreram? Por que deixar passar em branco quem foi Luís Carlos Prestes e como sua frieza sacrificou inocentes de carne e osso no altar de sua utopia nefasta?

Em nome dos fatos históricos e contra as diferentes visões maniqueístas, recomendo a leitura do longo texto na íntegra. Segue seu desfecho:

Não se constrói uma nação com base no maniqueísmo ideológico, que aniquila o senso crítico e infantiliza os jovens, tornando-os presas fáceis de qualquer demagogo de esquerda que se apresente como revisor do passado e senhor do futuro, oferecendo a utopia da revolução como uma espécie de errata da própria humanidade. A nação precisa ser criticamente educada para pensar o passado sem exageros, reconhecendo os erros e acertos de cada período histórico. É impossível, por exemplo, que, nos 21 anos que separam o golpe militar de 1964 da eleição de um presidente civil em 1985, o Brasil tenha sido apenas uma terra arrasada por “anos de chumbo”, como querem fazer crer os Comitês da Vingança que se arvoram a senhores da verdade. “O regime militar brasileiro não foi uma ditadura militar de 21 anos” — é o que afirma o historiador Marco Antonio Villa, doutor em história pela USP e professor da Universidade Federal de São Carlos, em seu livro “Ditadura à Brasileira”, com o qual eu e os fatos concordamos integralmente. Até o final de 1968, antes do AI-5, o Brasil vivia uma efervescência político-cultural mais intensa do que hoje. Depois da Anistia, em 1979, também.

Mas não se deve combater o mito guerrilheiro com outro mito — o do Exército salvador da pátria, que, a cada ameaça comunista, é chamado a salvar a democracia a golpes de Estado. O Brasil vive novamente um desses momentos cruciais de sua história, em que as instituições estão sendo transformadas em instrumento da ideologia esquerdista — o que leva alguns setores da sociedade, ainda que minoritários, a pedir a volta dos militares. É suicídio. Uma nação adulta dispensa pais de farda. A República brasileira não pode ser uma quartelada, com interregnos de democracia em meio a uma história de arbítrios. Mas também não pode ser uma eterna utopia, em que, à custa de construir um “outro mun­do possível”, a esquerda destrua co­tidianamente o mundo real, atiçando pobres contra ricos, negros contra brancos, mulheres contra ho­mens, minorias contra maiorias, até que, em meio a esse caos de conflitos forjados, tenhamos o pior dos conflitos: militares contra civis — que é onde morre a democracia.


Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/historia/31-de-marco-de-1964-contra-as-visoes-maniqueistas/

Esquerda tinha ditaduras como modelo


Esquerda tinha ditaduras como modelo

Marco Antonio Villa *

Durante a ditadura, a oposição de esquerda transformou a experiência dos países socialistas em referência de democracia. A ditadura do proletariado foi exaltada como o ápice da liberdade humana e serviu como contraponto ao regime militar. A falácia tinha uma longa história. Desde os anos 1930 brasileiros escreveram libelos em defesa do sistema que libertava o homem da opressão capitalista.
Tudo começou com URSS, Um Novo Mundo, de Caio Prado Júnior, publicado em 1934, resultado de uma viagem de dois meses do autor pela União Soviética. Resolveu escrevê-lo, segundo informa na apresentação, devido ao sucesso das palestras que teria feito em São Paulo descrevendo a viagem. À época já se sabia do massacre de milhões de camponeses (a coletivização forçada do campo, 1929-1933) e a repressão a todas os não bolcheviques.
Prado Júnior justificou a violência, que segundo ele "está nas mãos das classes mais democráticas, a começar pelo proletariado, que delas precisam para destruir a sociedade burguesa e construir a sociedade socialista". A feroz ditadura foi assim retratada: "O regime soviético representa a mais perfeita comunhão de governados e governantes". O autor regressou à União Soviética 27 anos depois. Publicou seu relato com o título O Mundo do Socialismo. Logo de início escreveu que estava "convencido dessa transformação (socialista), e que a humanidade toda marcha para ela".
Em 1960, Caio Prado não poderia ignorar a repressão soviética. A invasão da Hungria e os campos de concentração stalinistas estavam na memória. Mas o historiador exaltava "o que ocorre no terreno da liberdade de expressão do pensamento, oral e escrito", acrescentando: "Nada há nos países capitalistas que mesmo de longe se compare com o que a respeito ocorre na União Soviética". E continua escamoteando a ditadura: "Os aparelhos especiais de repressão interna desapareceram por completo. Tem-se neles a mais total liberdade de movimentos, e não há sinais de restrições além das ordinárias e normais que se encontram em qualquer outro lugar."
Seguindo pelo mesmo caminho está Jorge Amado, Prêmio Stalin da Paz de 1951. Isso mesmo: o tirano que ordenou o massacre de milhões de soviéticos dava seu nome a um prêmio "da paz". Antes de visitar a União Soviética e publicar um livro relatando as maravilhas do socialismo - o que ocorreu em 1951 -, Amado escreveu uma laudatória biografia de Luís Carlos Prestes. A União Soviética foi retratada da seguinte forma: "Pátria dos trabalhadores do mundo, pátria da ciência, da arte, da cultura, da beleza e da liberdade. Pátria da justiça humana, sonho dos poetas que os operários e os camponeses fizeram realidade magnífica".
A partir dos anos 1970, o foco foi saindo da União Soviética e se dirigindo a outros países socialistas. Em parte devido aos diversos rachas na esquerda brasileira. Cada agrupamento foi escolhendo a sua "referência", o país-modelo. O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) optou pela Albânia. O país mais atrasado da Europa virou a meca dos antigos maoistas, como pode ser visto no livro O Socialismo na Albânia, de Jaime Sautchuk. O jornalista visitou o país e não viu nenhuma repressão. Apresentou um retrato róseo. Ao visitar um apartamento escolhido pelo governo, notou que não havia gás de cozinha. O fogão funcionava graças à lenha ou ao carvão. Isso foi registrado como algo absolutamente natural.
O culto da personalidade de Enver Hoxha, o tirano albanês, segundo Sautchuk, não era incentivado pelo governo. Era de forma natural que a divinização do líder começava nos jardins de infância onde era chamado de "titio Enver". As condenações à morte de dirigentes que se opuseram ao ditador foram justificadas por razões de Estado. Assim como a censura à imprensa.
Com o desgaste dos modelos soviético, chinês e albanês, Cuba passou a ocupar o lugar. Teve papel central neste processo o livro A Ilha, do jornalista Fernando Morais, que visitou o país em 1977. Quando perguntado sobre os presos políticos, o ditador Fidel Castro respondeu que "deve haver uns 2 mil ou 3 mil". Tudo isso foi dito naturalmente - e aceito pelo entrevistador.
Um dos piores momentos do livro é quando Morais perguntou para um jornalista se em Cuba existia liberdade de imprensa. A resposta foi uma gargalhada: "Claro que não. Liberdade de imprensa é apenas um eufemismo burguês". Outro jornalista completou: "Liberdade de imprensa para atacar um governo voltado para o proletariado? Isso nós não temos. E nos orgulhamos muito de não ter". O silêncio de Morais, para o leitor, é sinal de concordância. O pior é que vivíamos sob o tacão da censura.
O mais estranho é que essa literatura era consumida como um instrumento de combate do regime militar. Causa perplexidade como os valores democráticos resistiram aos golpes do poder (a direita) e de seus opositores (a esquerda).


historiador, é autor, entre outros livros, de 'ditadura à brasileira. 1964-1985. a democracia golpeada à esquerda e à direita' (leya).

Fonte: OESP

terça-feira, 25 de março de 2014

'Intercâmbio deve ser recíproco', diz ex-reitor da Universidade de Salamanca


'Intercâmbio deve ser recíproco', diz ex-reitor da Universidade de Salamanca

Presidente de comitê que organiza reunião de reitores elogia CsF e diz que Brasil precisa receber mais estudantes

O presidente do comitê organizador do 3.º Encontro Internacional de Reitores Universia e ex-reitor da Universidade de Salamanca, Don Ignacio Berdugo (foto), defende que o Brasil não apenas exporte alunos como também traga estrangeiros para estudar no País. Em entrevista ao Estado, Berdugo falou sobre intercâmbio e internacionalização das universidades – temas que vão permear o encontro entre mil reitores de todo o mundo que ocorrerá em julho, no Rio de Janeiro.

Qual é o maior desafio para a internacionalização das universidades?

As universidades têm de responder os desafios das sociedades. O debate mais importante hoje é a internacionalização, a universalização do saber e do conhecimento. Não podemos ter fronteira para isso. A internacionalização começa com o envio de estudantes, mas passa também pelo compartilhamento do conhecimento nos centros de pesquisas. Também requer respostas organizativas, como escritório que dê respaldo para o aluno que migra. E envolve questões de mobilidade – um médico brasileiro poder atuar em outro país, por exemplo, é a última consequência dessa mobilidade. É um desafio que está no horizonte. Isso melhorou nos últimos 30 anos, ajudado por novas tecnologias que melhoraram a comunicação.

Como o senhor vê o programa Ciência Sem Fronteiras, do governo brasileiro?

É um programa exemplar no mundo, é uma aposta do governo na educação. O direito educativo não é algo que interessa apenas às universidades ou aos universitários, mas também aos governos. Para fazer algo de qualidade é preciso olhar para a internacionalização e para a mobilidade. Há também condicionantes internas, supondo um esforço das universidades e não apenas do governo. Há ainda a responsabilidade de que o País também seja atrativo para que estudantes de outros lugares venham para cá. Se o Brasil manda 100 mil estudantes brasileiros para fora, tem de receber outros 100 mil. É preciso buscar a reciprocidade, para que a qualidade que grande parte das instituições brasileiras têm seja exteriorizada.

O que a crise econômica mudou na relação entre Brasil e Espanha?

Uma consequência clara da crise econômica é o aumento da mobilidade profissional e de estudantes, que buscam oportunidades fora do nosso país. Isso é bastante dramático, pois os melhores profissionais passam a contribuir com desenvolvimento de outras nações.

O encontro de reitores que vai discutir a internacionalização das universidades ocorre no Brasil neste ano. Qual é o desafio comum e o que será discutido?

Teremos a possibilidade de encontrar universidades de outros países e compartilhar experiência, práticas e criar condições que possibilitem a internacionalização. O que nos une é a história comum, raiz compartilhada. Esperamos 1,2 mil reitores no Rio, de universidades particularmente selecionadas. Será diferente dos outros encontros, em que se discutia o que pensam os reitores sobre si mesmos. Agora haverá debates sobre o que a sociedade pensa sobre nós.

Há desafios parecidos para o ensino superior aqui no Brasil e na Espanha?


Creio que são distintos. Há coisas comuns, mas muitas diferenças. Na Espanha, a maior parte dos estudantes está em universidades públicas, enquanto no Brasil a maior parte está em particulares. O Brasil é um país com desafios claros na educação, que precisa de mais universidades. É uma nação muito grande, portanto, os desafios são maiores. Vocês não podem concentrar a educação apenas nas capitais dos Estados, mas em todas as cidades do território. Na Espanha, um país pequeno, isso é mais fácil.

Fonte:

domingo, 23 de março de 2014

Vereador lava até BMW particular com verba pública



Jornal 'Estado' analisou 7,9 mil notas e apurou que recurso de gabinete banca advogados, giz de cera e aluguel de carro de luxo em SP

Adriana Ferraz, Daniel Trielli e Edison Veiga - O Estado de S. Paulo

Vereadores de São Paulo usam verba de gabinete para pagar aluguel de carro pelo dobro do preço oficial, comprar papel higiênico para escritório político, contratar advogado em vez de recorrer aos 32 procuradores da Câmara Municipal e encomendar brindes e homenagens para agradar seu eleitorado. O Estado analisou cada uma das 7.960 notas fiscais apresentadas no primeiro ano da atual legislatura e averiguou como cada parlamentar gasta os recursos públicos.
Entre os pedidos de reembolso feitos em 2013 há também recibo de lavagem de carros de luxo particulares, de material escolar - como giz de cera e tinta guache -, flores e notas fiscais que indicam variação de até 30% na compra de um mesmo produto dentro de 30 dias, como um litro de combustível etanol. No ano passado, os 55 vereadores paulistanos foram reembolsados em R$ 9 milhões para custear despesas de gabinete.
O levantamento mostra em detalhes como os parlamentares fazem uso dos R$ 218 mil anuais a que têm direito. O resultado é que, dependendo do vereador, boa parte dos gastos não segue o princípio do interesse público nem a regra do menor preço, de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Parlamentar novato, Masataka Ota (PROS), por exemplo, gastou R$ 5,3 mil por mês com o aluguel de um Toyota Corolla. Por menos da metade do preço, a Câmara oferece um Fiat Linea, ao custo mensal de R$ 2,6 mil - valor obtido por meio de uma licitação. Ota, porém, argumentou que o valor que paga pelo Corolla está abaixo do praticado no mercado.
Apesar de dispendiosa, a troca de veículo não é proibida pela Casa, e o vereador que teve o gasto com um carro de luxo é reembolsado. Masataka não é o único. Outros dez colegas preferiram escolher seus próprios veículos e pagaram a mais por isso. Paulo Fiorilo (PT) é o único que locou um carro e pagou menos: R$ 2,5 mil mensais por um VW Polo Sedan.
Contas de telefone dos escritórios políticos de Aurélio Nomura (PSDB), Edir Sales (PSD) e Dalton Silvano (PV) também são pagas com verbas de gabinete. No caso do vereador George Hato (PMDB), ele ainda paga material de limpeza do imóvel onde seu pai, o deputado estadual Joogi Hato (PMDB), atende seus eleitores. Entre as notas apresentadas por Hato, há sacos de lixo, vassouras e até papel higiênico.
De acordo com o Regimento Interno da Câmara, conjunto de regras elaboradas pelos próprios vereadores, gastos com lavagem de veículo e pagamento de contas de escritórios não estão vetados. Mas, segundo o professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marco Antonio Teixeira, gastos com dinheiro do contribuinte devem atender ao interesse público.
A análise das notas, apesar disso, mostra que os recursos municipais foram usados para pagar gastos privados. A BMW particular de Rubens Calvo (PMDB), por exemplo, foi lavada dez vezes, ao custo que variou de R$ 30 a R$ 180. O parlamentar considera o serviço necessário para manter seu carro, ano 1994, em ordem.
Segundo o regimento, bancar itens de limpeza em escritórios particulares é prática proibida, assim como misturar despesas de uso público e de uso privado. Aurélio Miguel (PR), porém, somou compras para seu gabinete com compras supostamente escolares em notas fiscais de papelaria apresentadas em fevereiro do ano passado. Há gastos com giz de cera, massinha e tinta guache. O vereador afirmou ter feito o desconto dos itens, avaliados em R$ 26,40, no pedido de reembolso.
Para a Câmara, o procedimento basta para corrigir o erro. No caso de Hato, porém, o presidente da Casa, José Américo (PT), afirmou que ordenará o desconto dos valores pagos indevidamente no próximo pedido de reembolso do vereador, que não se manifestou.
Boletins. Na soma total, o maior volume de dinheiro é destinado ao pagamento de serviços gráficos, como criação e impressão de boletins que têm por objetivo formal mostrar aos eleitores o que o vereador faz no mandato. No ano passado, essa conta foi de R$ 2 milhões, ou 22% do total. Gastos com correio estão em segundo lugar, com R$ 1,5 milhão. Em seguida, locação de carros oficiais, ao custo de R$ 1,3 milhão.
A análise das notas aponta também as diferenças de gastos existentes entre um gabinete e outro da Câmara. Um grupo de parlamentares, por exemplo, além dos ramais oficiais, tem linhas fixas de telefone.
Outro grupo afirma não ter computadores para todos os funcionários trabalharem, o que os permite gastar com aluguéis de equipamentos eletrônicos. Há quem pagou R$ 5 mil mensais no serviço. Consequentemente, o dinheiro público também vai para a manutenção das máquinas. Somados, ambos os serviços alcançaram mais de R$1,4 milhão em 2013.
Para o professor da FGV, as diferenças de preços indicam que o modelo de descentralizar o uso da verba de gabinete, delegando a cada parlamentar o poder de escolha do fornecedor, não é o mais econômico para a Câmara. Valores como os gastos com serviços de informática permitiriam, por exemplo, a realização de uma licitação para reduzir o desperdício e padronizar as ferramentas de trabalho.
"Quando você descentraliza recursos e distribui para os parlamentares gastarem da forma que querem, nada garante que está sendo pago o menor preço, nada garante que o produto entregue é de qualidade. Uso de recurso público requer economicidade, que é o melhor pelo menor preço, e legitimidade, ou seja, que se gaste o que é necessário", disse Teixeira.
A Presidência da Casa informou que fiscaliza os gastos por meio de amostragem, seguindo mensalmente parâmetros para averiguar se há excessos.


terça-feira, 18 de março de 2014

Maduro e as desculpas automáticas


Sem "onda vermelha" no horizonte

Sem "onda vermelha" no horizonte

por Raymundo Costa

PT refaz avaliação de crescimento de suas bancadas

O PT fez as contas e concluiu que não tem como se tornar hegemônico no Senado e na Câmara, nas próximas eleições, conforme o temor manifesto da oposição e dos aliados. Só diz isso quem não se deu ao trabalho de fazer os cálculos ou quer tumultuar ainda mais a sucessão presidencial e as relações na base governista, segundo avaliam líderes petistas.
De acordo com levantamentos do PT, o partido no máximo mantém sua atual bancada na Câmara, que é de 87 deputados, e talvez tenha algum crescimento no Senado. A bancada tem 13 senadores, mas o número exato é de 14 - o suplente de Marta Suplicy (SP), que no momento ocupa o Ministério da Cultura, é do PMDB. Marta tem mais quatro anos de mandato e pode voltar em 2015, se não permanecer no novo governo.
Dos atuais senadores petistas, três devem disputar a reeleição. Contando com Marta, o PT já entra em 2015 com 11 senadores. Resumindo: para chegar a 20 senadores - que é o número do PMDB, atualmente a bancada majoritária -, o PT precisa eleger pelo menos nove de seus candidatos. Ocorre que o partido não deve disputar o Senado em cerca de 18 Estados (incluindo o Distrito Federal), número que pode aumentar - para privilegiar alianças regionais - ou diminuir. Nada significativo, para maior ou para menor. Ou seja, para se tornar hegemônico no Senado, o PT precisaria eleger algo em torno de 90% das vagas que disputará nesses Estados.
Hegemônico não é propriamente a palavra correta, porque se eleger nove ou dez senadores, o PT terá uma bancada majoritária, como atualmente é a do PMDB. O partido se tornaria menos vulnerável a barganhas com os pemedebistas e outros aliados, é bem verdade; mas ainda precisaria de uma generosa porção de votos dos aliados para aprovar projetos que têm a marca do PT. Por exemplo, a proposta de regulamentação social da mídia.
Na região Sul, o PT pode ter candidato ao Senado em Santa Catarina. Depende ainda dos acertos locais. Nos quatro Estados do Sudeste, só o senador Eduardo Suplicy, em São Paulo, um dos três senadores petistas que precisam renovar o mandato. O Norte deve ter um candidato, no Pará, em acordo com o PMDB do senador Jader Barbalho, apesar da forte oposição de facções petistas.
No Centro-Oeste om PT não terá candidato em Mato Grosso, nem em Mato Grosso do Sul. Falta uma definição para Goiás. No Distrito Federal, onde o candidato à reeleição é do PT, a vaga para o Senado deve ser usada para negociação.
Se a candidatura do senador Delcídio Amaral ao governo de Mato Grosso do Sul obtiver sucesso, o PT perderá uma cadeira no Senado: o suplente de Delcídio é do PMDB. A maior concentração de candidatos petistas deve ser no Nordeste. Dos nove Estados da região, está certo apenas que o PT não disputará na Bahia, Maranhão, Piauí e Alagoas. Há eventuais candidatos em todos os Estados, mas as decisões serão de cúpula.
Na Câmara o cálculo é mais difícil de ser feito, por se tratar de uma eleição proporcional. A nominata dos Estados, no entanto, leva os líderes da campanha petista a avalizar que a bancada do PT no máximo empata com a atual, e se crescer dificilmente chegará a 130 deputados. São Paulo, por exemplo, tem 14 deputados federais. E há dúvidas se o partido pode repetir o desempenho de 2010.
As dificuldades em São Paulo não são pequenas. De saída, o PT não contará na eleição para federal com nomes bons de votos, em 2010, como João Paulo Cunha, condenado no processo do mensalão, Jilmar Tatto e José de Filipi Júnior, secretários da Prefeitura de São Paulo, nem com nomes novos que certamente seriam bem votados, como Rui Falcão, presidente do PT. Até José Genoino, que terminou a última eleição como suplente mas sempre carrega uma boa expectativa de votos.
Algum dos candidatos em São Paulo pode surpreender, inclusive pelo fato de o PT considerar que entra na eleição para o governo do Estado com uma candidatura competitiva, a do ex-ministro Alexandre Padilha. Mas qualquer projeção, à esta altura, é chute. Até porque há outras variáveis.
O palhaço Tiririca, nas eleições de 2010, segundo o cálculo do PT tirou pelo menos dois deputados do partido. Ele repetirá a caudalosa votação de 2010? Ninguém sabe. Tem ainda o mensalão e a administração de Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo, por enquanto, mal avaliada pela opinião pública. A melhor projeção de crescimento da bancada do PT é Minas Gerais, onde o partido terá um candidato competitivo a governador: Fernando Pimental, ex-ministro do Desenvolvimento. Um ou dois deputados a mais.
O PT começou os preparativos para a eleição de 2014, de fato, pensando em eleger maioria tanto na Câmara quanto no Senado. O número mágico de 130 deputados frequentou as conversas de seus dirigentes. Com o tempo, o partido precisou adequar os planos à realidade da política de alianças, principalmente depois que a presidente Dilma Rousseff levou um tombo nas pesquisas de junho de 2013.
No início, prioridade era a indicação de candidatos ao Senado nas chapas estaduais. Hoje, o planejamento do PT é vencer a eleição em um ou dois Estados no chamado Triângulo das Bermudas, onde se localizam os maiores colégios eleitorais da República - São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O PT é competitivo também na eleição do Paraná. Em seu longo inverno na oposição, esses (à exceção do Rio) foram os Estados que garantiram até agora a sobrevivência do PSDB.
Uma nova "onda vermelha" como a de 2002, evidentemente, será saudada efusivamente pelos dirigentes petistas. Mas nem na cúpula do partido nem no embrião de comitê de campanha de Dilma a previsão hoje é de hegemonia no Congresso ou de um partido com o tamanho e as ramificações do PRI, que reinou por mais de 70 anos na política mexicana. Isso, é claro, para não falar do bolivarismo venezuelano, que é o pano de fundo real das avaliações sobre a suposta hegemonia a ser conquistada pelo PT no Congresso.


Fonte: Valor Econômico

Políticos argentinos denunciam Maduro


Políticos argentinos denunciam Maduro por crimes contra a humanidade perante o Tribunal de Haia
Publicado por Folha Política

Por ocasião das "graves violações dos direitos humanos e da escalada de violência que vêm sofrendo a Venezuela", vários partidos políticos de oposição da Argentina anunciaram hoje que, em conjunto com "senadores e representantes de outras nações latino-americanas", acusam o Presidente da República, Nicolás Maduro, por crimes contra a humanidade perante o Tribunal Penal Internacional, em Haia.
Na declaração assinada, chamada "Primeira declaração conjunta sobre a crise política e humanitária na Venezuela", eles fizeram um apelo a "todos os setores democráticos da América Latina para mostrar solidariedade para com as vítimas da repressão na Venezuela".
A decisão foi tomada esta tarde, como parte de uma visita a Buenos Aires do deputado boliviano Adrian Oliva, presidente da Aliança Democrática Parlamentar da América (APDA), com a participação de deputados Cornelia Schmidt Liermann (PRO), Patricia Bullrich (União PRO), Alberto Asseff (UNITE), Gisela Scaglia (União PRO) e Diego Guelar (Chefe de Relações Internacionais do PRO).
Também estiveram presentes jovens venezuelanos que vivem na Argentina, representantes da União da Juventude e Renovação Frente PRO de organizações sociais como o AMA (Associação de Mulheres da Argentina) e outros.
Na declaração assinada, eles fizeram um apelo a "todos os setores democráticos na América Latina multilateral, organizações, governos, parlamentos, associações, sindicatos, universidades, diplomatas, intelectuais, estudantes e outras pessoas para mostrar solidariedade para com as vítimas da repressão na Venezuela" e condenam as violações dos direitos humanos cometidas pelo governo de Nicolás Maduro, "para não deixar que esta crise se degenere em maior conflito, o que não só colocaria em risco a paz e a estabilidade nessa nação irmã, mas em toda a região".
Na abertura da reunião, a deputada Schmidt Liermann disse: "Esta iniciativa dos direitos humanos, que vem da Argentina, é do sul para o sul", enquanto Adrian Oliva, que preside a Aliança Parlamentar, a qual reúne 13 países latino-americanos, expressa que "o objetivo é apresentar a referida queixa apoiada conjuntamente por centenas de parlamentares na região, uma vez que os direitos humanos são universalmente reconhecidos".