quarta-feira, 8 de abril de 2026

Carta de Marx a Pável V. Annenkov - 1846

 

Carta a Pável V. Annenkov
(em Paris)

Karl Marx


Bruxelas, 28 de Dezembro [de 1846]

Meu caro Sr. Annenkov,

Já teria recebido há muito a minha resposta à sua carta de 1 de Novembro, se o meu livreiro não tivesse demorado até à semana passada a enviar-me o livro do sr. ProudhonPhilosophie de la misère. Percorri-o em dois dias, para poder comunicar imediatamente a V. a minha opinião. Como li o livro muito rapidamente, não posso entrar em pormenores, apenas posso falar-lhe da impressão geral que produziu em mim. Se V. quiser poderei entrar em pormenores numa segunda carta.

Confesso-lhe francamente que acho o livro em geral mau e muito mau. Na sua carta, V. mesmo brinca "com o naco de filosofia alemã" que o sr. Proudhon alardeia nessa obra informe e presunçosa, mas supõe V. que o desenvolvimento económico não foi infectado pelo veneno filosófico. Também eu estou muito longe de imputar os erros da explanação económica à filosofia do sr. Proudhon. Não é por estar na posse de uma filosofia ridícula que o sr. Proudhon apresenta uma falsa crítica da economia política, ele apresenta uma filosofia ridícula por não ter compreendido o estado social actual no seu encadeamento [engrènement], para usar uma palavra que o sr. Proudhon foi buscar a Fourier, como muitas outras coisas.

Porque fala o sr. Proudhon de deus, da razão universal, da razão impessoal da humanidade que nunca se engana, que desde sempre foi igual a si própria, da qual basta apenas ter-se a justa consciência para se estar com a verdade? Porque pratica ele um fraco hegelianismo, para se arvorar em espírito forte?

Ele mesmo nos dá a chave do enigma. O sr. Proudhon vê na história uma certa série de desenvolvimentos sociais; acha o progresso realizado na história; acha por último que os homens, como indivíduos, não sabiam o que faziam, se enganavam sobre o seu próprio movimento, isto é, que o seu desenvolvimento social parece à primeira vista coisa distinta, separada, independente do seu desenvolvimento individual. Não sabe explicar estes factos e a hipótese da razão universal, que se manifesta, está assim perfeitamente encontrada. Nada mais fácil do que inventar causas místicas, isto é, frases, donde está ausente o senso comum.

Mas ao confessar que nada percebe do desenvolvimento histórico da humanidade — e confessa-o quando se serve de palavras sonoras como razão universal, deus, etc. — não confessa o sr. Proudhon, implícita e necessariamente, que é incapaz de compreender desenvolvimentos económicos?

Que é a sociedade, qualquer que seja a sua forma? O produto da acção recíproca dos homens. São os homens livres de escolher esta ou aquela forma social? De modo algum. Considere-se um certo estado de desenvolvimento das faculdades produtivas dos homens e ter-se-á tal forma de comércio e de consumo. Considerem-se certos graus de desenvolvimento da produção, do comércio, do consumo e ter-se-á tal forma de constituição social, tal organização da família, das ordens ou das classes, numa palavra, tal sociedade civil. Considere-se tal sociedade civil e ter-se-á tal Estado político, que não é mais do que a expressão oficial da sociedade civil. Eis o que o sr. Proudhon nunca compreenderá, porque julga fazer uma grande coisa quando apela para a sociedade civil contra o Estado, isto é, para a sociedade oficial contra o resumo oficial da sociedade.

É desnecessário acrescentar que os homens não são livres árbitros das suas forças produtivas — as quais são a base de toda a sua história — pois toda a força produtiva é uma força adquirida, o produto de uma actividade anterior. Assim, as forças produtivas são o resultado da energia prática dos homens, mas esta própria energia está circunscrita pelas condições em que os homens se encontram situados, pelas forças produtivas já adquiridas, pela forma social que existe antes deles, que eles não criam, que é o produto da geração anterior. Pelo simples facto de que toda a geração posterior encontra forças produtivas adquiridas pela geração anterior, que lhe servem como matéria-prima de nova produção, forma-se uma conexão [connexité] na história dos homens, forma-se uma história da humanidade, que é tanto mais a história da humanidade quanto as forças produtivas dos homens, e por consequência as suas relações sociais, tiverem crescido. Consequência necessária: a história social dos homens nunca é senão a história do seu desenvolvimento individual, quer eles tenham consciência disso quer não a tenham. As suas relações materiais formam a base de todas as suas relações. Estas relações materiais não são senão as formas necessárias em que se realiza a sua actividade material e individual.

O sr. Proudhon confunde as ideias e as coisas. Os homens nunca renunciam ao que ganharam, mas isso não quer dizer que nunca renunciem à forma social em que adquiriram certas forças produtivas. Muito pelo contrário. Para não serem privados do resultado obtido, para não perderem os frutos da civilização, os homens são forçados, a partir do momento em que o modo do seu comércio já não corresponde às forças produtivas adquiridas, a mudar todas as suas formas sociais tradicionais. —Tomo aqui a palavra comércio no seu sentido mais geral, como nós dizemos em alemão: Verkehr. — Por exemplo: o privilégio, a instituição das jurandas e das corporações, o regime de regulamentação na Idade Média, eram as únicas relações sociais que correspondiam às forças produtivas adquiridas e ao estado social pré-existente, do qual essas instituições tinham saído. Sob a protecção do regime corporativo e da regulamentação, os capitais tinham-se acumulado, desenvolvera-se um comércio marítimo, haviam sido fundadas colónias — e os homens teriam perdido os próprios frutos se tivessem querido conservar as formas sob cuja protecção esses frutos tinham amadurecido. Por isso se deram duas trovoadas: a revolução de 1640 e a de 1688. Todas as antigas formas económicas, as relações sociais que lhes correspondiam, o estado político que era a expressão oficial da antiga sociedade civil foram quebrados, na Inglaterra. Assim, as formas económicas sob as quais os homens produzem, consomem, trocam, são transitórias e históricas. Com novas faculdades produtivas adquiridas, os homens mudam o seu modo de produção e, com o modo de produção, mudam todas as relações económicas, que não foram senão as relações necessárias desse modo de produção determinado.

É o que o sr. Proudhon não compreendeu [e] ainda menos demonstrou. Incapaz de seguir o movimento real da história, o sr. Proudhon dá-nos uma fantasmagoria que tem a pretensão de ser uma fantasmagoria dialéctica. Ele não sente necessidade de nos falar dos séculos XVII, XVIII e XIX, porque a sua história passa-se no ambiente nebuloso da imaginação e eleva-se, altaneiramente, acima dos tempos e dos lugares. Numa palavra, é velharia hegeliana, não é uma história: não é uma história profana — história dos homens — é uma história sagrada —história das ideias. Na sua maneira de ver, o homem não é senão o instrumento de que a ideia ou a razão eterna fazem uso para desenvolver-se. As evoluções de que fala o sr. Proudhon passam por ser as evoluções tais como ocorrem no seio místico da ideia absoluta. Se rasgarmos o véu dessa linguagem mística, isso equivale a dizer que o sr. Proudhon nos dá a ordem pela qual se arrumam as categorias económicas na sua cabeça. Não precisarei de grande esforço para provar a V. que essa arrumação é a arrumação de uma cabeça muito desordenada.

O sr. Proudhon começou o seu livro com uma dissertação sobre o valor, que é a sua mania. Não entrarei desta vez no exame de tal dissertação.

A série das evoluções económicas da razão eterna começa com a divisão do trabalho. Para o sr. Proudhon, a divisão do trabalho é coisa muito simples. Mas não era o regime das castas uma certa divisão do trabalho? E o regime das corporações, não era uma outra divisão do trabalho? E a divisão do trabalho do regime manufactureiro, que começa em meados do século XVII e acaba na última parte do século XVIII na Inglaterra, não é também totalmente distinta da divisão do trabalho da grande indústria, da indústria moderna?

O sr. Proudhon está tão pouco dentro da verdade que descura aquilo que os próprios economistas profanos fazem. Para nos falar da divisão do trabalho, ele não precisa de falar do mercado mundial. Ora bem! A divisão do trabalho, nos séculos XIV e XV, quando não havia ainda colónias, quando a América não existia ainda para a Europa, quando a Ásia oriental só existia por intermédio de Constantinopla — não havia ela de se distinguir de alto a baixo da divisão do trabalho do século XVII, que tinha colónias já desenvolvidas?

Não é tudo. Toda a organização interna dos povos, todas as suas relações internacionais, serão outra coisa do que a expressão de uma certa divisão do trabalho? E não haverão elas de mudar com a mudança da divisão do trabalho?

O sr. Proudhon compreendeu em tão pequena medida a divisão do trabalho que nem sequer nos fala da separação da cidade e do campo, que, na Alemanha, por exemplo, se efectuou do século IX ao século XII. Assim, para o sr. Proudhon essa separação deve ser lei eterna, pois não conhece nem a sua origem nem o seu desenvolvimento. Ele vai-nos falar em todo o seu livro como se esta criação de um certo modo de produção durasse até ao fim dos tempos. Tudo o que diz o sr. Proudhon da divisão do trabalho é apenas um resumo e, além disso, um resumo muito superficial e muito incompleto do que haviam dito antes dele Adam Smith e mil outros.

A segunda evolução, são as máquinas. A conexão entre a divisão do trabalho e as máquinas é toda ela mística no sr. Proudhon. Cada um dos modos da divisão do trabalho tinha instrumentos de produção específicos. Por exemplo, de meados do século XVII até meados do século XVIII os homens não faziam tudo manualmente. Possuíam instrumentos e instrumentos muito complicados, como os teares, os navios, as alavancas, etc, etc.

Assim, nada mais ridículo do que fazer derivar as máquinas como consequência da divisão do trabalho em geral.

Dir-lhe-ei ainda de passagem que o sr. Proudhon, como não compreendeu a origem histórica das máquinas, menos ainda compreendeu o seu desenvolvimento. Até ao ano de 1825 — época da primeira crise universal — pode dizer-se que as necessidades do consumo em geral avançavam mais depressa do que a produção, e que o desenvolvimento das máquinas era a forçosa consequência das necessidades do mercado. Desde 1825, a invenção e a aplicação das máquinas não é senão o resultado da guerra entre os patrões [maîtres] e os operários. E ainda assim isto só é verdade para a Inglaterra. Quanto às nações europeias, foram forçadas a aplicar as máquinas pela concorrência que os ingleses lhes faziam, tanto no seu próprio mercado como no mercado mundial. Por fim, quanto à América do Norte, a introdução das máquinas foi trazida quer pela concorrência com os outros povos quer pela escassez dos braços, isto é, pela desproporção entre a população e as necessidades industriais da América do Norte. Destes factos pode V. concluir que sagacidade o sr. Proudhon não desenvolve, ao conjurar o fantasma da concorrência como terceira evolução, como antítese das máquinas!

Por fim, em geral, é um verdadeiro absurdo fazer das máquinas uma categoria económica, ao lado da divisão do trabalho, da concorrência, do crédito, etc.

A máquina é tão pouco uma categoria económica como o boi que puxa a charrua. A aplicação actual das máquinas é uma das relações do nosso regime económico actual, mas o modo de explorar as máquinas é inteiramente distinto das próprias máquinas. A pólvora permanece a mesma, quer nos sirvamos dela para ferir um homem ou para tratar as chagas do ferido.

O sr. Proudhon ultrapassa-se a si mesmo quando faz crescer no interior da sua cabeça a concorrência, o monopólio, o imposto ou a polícia, a balança comercial, o crédito, a propriedade, pela ordem que eu cito. Quase todas as instituições de crédito estavam desenvolvidas em Inglaterra, no começo do século XVIII, antes da invenção das máquinas. O crédito público era apenas uma nova maneira de elevar o imposto e de satisfazer as novas necessidades criadas pela chegada da classe burguesa ao governo. Finalmente, a propriedade forma a última categoria no sistema do sr. Proudhon. No mundo real, pelo contrário, a divisão do trabalho e todas as outras categorias do sr. Proudhon são relações sociais, cujo conjunto forma o que actualmente se chama a propriedade; fora destas relações, a propriedade burguesa não é mais do que uma ilusão metafísica ou jurídica. A propriedade de uma outra época, a propriedade feudal desenvolve-se numa série de relações sociais inteiramente diferentes. O sr. Proudhon, ao estabelecer a propriedade como uma relação independente, comete mais do que um erro de método: prova claramente que não apreendeu o elo que liga todas as formas da produção burguesa, que não compreendeu o carácter histórico transitório das formas da produção numa época determinada. O sr. Proudhon, que não vê nas nossas instituições sociais produtos históricos, que não compreende nem a sua origem nem o seu desenvolvimento, só pode fazer-lhes uma crítica dogmática.

Por isso o sr. Proudhon é forçado a recorrer a uma ficção para explicar o desenvolvimento. Imagina que a divisão do trabalho, o crédito, as máquinas, etc, que tudo foi inventado ao serviço da sua ideia fixa, a ideia da igualdade. A sua explicação é de uma ingenuidade sublime. Inventaram-se essas coisas para a igualdade, mas infelizmente elas viraram-se contra a igualdade. E esse todo o seu raciocínio. Ou seja: faz uma suposição gratuita, e como o desenvolvimento real e a sua ficção se contradizem a cada passo, ele conclui daí que há contradição. Dissimula-nos que apenas há contradição entre as suas ideias fixas e o movimento real.

Assim o sr. Proudhon, principalmente por falta de conhecimentos históricos, não viu: que os homens, ao desenvolverem as suas faculdades produtivas, isto é, ao viverem, desenvolvem certas relações entre eles, e que o modo dessas relações muda necessariamente com a modificação e o crescimento dessas faculdades produtivas. Ele não viu que as categorias económicas são apenas abstracções dessas relações reais, que só são verdades na medida em que subsistam essas relações. Assim, ele cai no erro dos economistas burgueses que vêem nessas categorias económicas leis eternas e não leis históricas, as quais só são leis para um certo desenvolvimento histórico, para um desenvolvimento determinado das forças produtivas. Assim, em vez de considerar as categorias político-económicas como abstracções feitas [a partir] das relações sociais reais, transitórias, históricas, o sr. Proudhon, por uma inversão mística, não vê nas relações reais senão corporizações [incorporations] dessas abstracções. Estas mesmas abstracções são fórmulas que dormitaram no seio de Deus-pai desde o começo do mundo.

Mas, aqui, o bom do sr. Proudhon cai em grandes convulsões intelectuais. Se todas estas categorias são emanações do coração de Deus, se são a vida oculta e eterna dos homens, como é que então, em primeiro lugar, há desenvolvimento e, em segundo lugar, como é que o sr. Proudhon não é conservador? Explica-nos estas contradições evidentes por todo um sistema do antagonismo.

Para esclarecer esse sistema de antagonismo, tomemos um exemplo.

monopólio é bom porque é uma categoria económica. Mas o que não é bom é a realidade do monopólio e a realidade da concorrência. O que é ainda pior, é que o monopólio e a concorrência se devoram mutuamente. Que se deve fazer neste caso? Como estes dois pensamentos eternos de Deus se contradizem, parece-lhe evidente que há no seio de Deus igualmente uma síntese entre esses dois pensamentos, na qual os males do monopólio são equilibrados pela concorrência, e vice-versa. A luta entre as duas ideias terá por efeito deixar-lhes aparecer só o lado bom. Há que arrancar a Deus esse pensamento secreto e depois aplicá-lo, e tudo correrá pelo melhor; há que revelar a fórmula sintética escondida na noite da razão impessoal da humanidade. O sr. Proudhon não hesita um só momento em fazer-se o revelador.

Mas lancemos por um momento o olhar sobre a vida real. Na vida económica actual, não apenas encontramos a concorrência e o monopólio, mas também a sua síntese, que não é uma fórmula, mas um movimento. O monopólio produz a concorrência; a concorrência produz o monopólio. No entanto, esta equação, longe de remover as dificuldades da situação actual, como imaginam os economistas burgueses, tem por resultado uma situação mais difícil e mais baralhada. Assim, mudando a base sobre a qual se fundam as relações económicas actuais, destruindo o modo actual de produção, destrói-se não só a concorrência, o monopólio e o seu antagonismo, mas também a sua unidade, a sua síntese, o movimento que é a equilibração real da concorrência e do monopólio.

Agora vou dar-lhe um exemplo da dialéctica do sr. Proudhon.

liberdade e a escravatura formam um antagonismo. Não preciso falar dos lados bons nem dos lados maus da liberdade.

Quanto à escravatura, não preciso falar dos seus lados maus. A única coisa que é preciso explicar é o lado belo da escravatura. Não se trata da escravatura indirecta, da escravatura do proletário, trata-se da escravatura directa, da escravatura dos Negros no Surinam(1*), no Brasil, nas regiões meridionais da América do Norte.

A escravatura directa é o eixo do nosso industrialismo actual, tal como as máquinas, o crédito, etc. Sem escravatura, não temos algodão; sem algodão, não temos indústria moderna. Foi a escravatura que deu valor às colónias, foram as colónias que criaram o comércio mundial, o comércio mundial é que é a condição necessária da grande indústria mecânica. Por isso, antes do tráfico dos negros, as colónias só davam ao velho mundo muito poucos produtos e não alteravam visivelmente a face do mundo. Assim, a escravatura é uma categoria económica da mais alta importância. Sem a escravatura, a América do Norte, o povo mais progressivo, transformar-se-ia num país patriarcal. Risque-se apenas a América do Norte do mapa dos povos e ter-se-á a anarquia, a decadência completa do comércio e da civilização modernos. Mas fazer desaparecer a escravatura seria riscar a América do mapa dos povos. Por isso a escravatura, sendo uma categoria económica, se encontra desde o começo do mundo em todos os povos. Os povos modernos só souberam disfarçar a escravatura no seu próprio seio e importá-la abertamente no Novo Mundo. Como abordará isto o bom do sr. Proudhon depois destas reflexões sobre a escravatura? Procurará a síntese da liberdade e da escravatura, o verdadeiro meio termo; por outras palavras: o equilíbrio da escravatura e da liberdade.

O sr. Proudhon compreendeu muito bem que os homens fazem o pano, a tela, os tecidos de seda; que grande mérito ter compreendido tão pouca coisa! O que o sr. Proudhon não compreendeu é que os homens, segundo as suas faculdades, produzem também as relações sociais em que produzem o pano e a tela. Menos ainda compreendeu o sr. Proudhon que os homens, que produzem as relações sociais em conformidade com a sua produtividade material, produzem também as ideias, as categorias, isto é, as expressões abstractas ideais [idéelles] dessas mesmas relações sociais. Assim, as categorias são tão pouco eternas quanto as relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios. Para o sr. Proudhon, muito pelo contrário, a causa primitiva são as abstracções, as categorias. Segundo ele, são elas e não os homens que produzem a história. A abstracção, a categoria tomada como tal, isto é, separada dos homens e da sua acção material, é naturalmente imortal, inalterável, impassível; é apenas um ser da razão pura, o que só quer dizer que a abstracção tomada como tal é abstracta. Tautologia admirável!

Por isso as relações económicas, vistas sob a forma das categorias, são para o sr. Proudhon fórmulas eternas, que não têm origem nem progresso.

Falemos de outra maneira: o sr. Proudhon não afirma directamente que a vida burguesa é para ele uma verdade eterna: di-lo indirectamente, divinizando as categorias que exprimem as relações burguesas sob a forma do pensamento. Ele toma os produtos da sociedade burguesa por seres espontâneos dotados de uma vida própria, eternos, desde que se lhe apresentem sob a forma de categorias, de pensamento. Assim, não se eleva acima do horizonte burguês. Porque opera sobre os pensamentos burgueses supondo-os eternamente verdadeiros, ele procura a síntese desses pensamentos, o seu equilíbrio, e não vê que o modo actual de se equilibrarem é o único modo possível.

Realmente, ele faz o que fazem todos os bons burgueses. Todos eles nos dizem que a concorrência, o monopólio, etc, em princípio, isto é, tomados como pensamentos abstractos, são os únicos fundamentos da vida, mas que deixam muito a desejar na prática. Todos eles querem a concorrência sem as consequências funestas da concorrência. Todos eles querem o impossível, isto é, as condições da vida burguesa sem as consequências necessárias dessas condições. Todos eles são incapazes de compreender que a forma burguesa da produção é uma forma histórica e transitória, exactamente como o era a forma feudal. Este erro vem de que, para eles, o homem-burguês é a única base possível de toda a sociedade, de que não imaginam um estado de sociedade em que o homem tivesse deixado de ser burguês.

O sr. Proudhon é pois necessariamente doutrinário. O movimento histórico que revolve o mundo actual resolve-se, para ele, no problema de descobrir o justo equilíbrio, a síntese de dois pensamentos burgueses. Assim, à força de subtileza, o esperto do rapaz descobre o pensamento oculto de Deus, a unidade dos dois pensamentos isolados que são só dois pensamentos isolados, porque o sr. Proudhon os isolou da vida prática, da produção actual, que é a combinação das realidades que eles exprimem. No lugar do grande movimento histórico, que nasce do conflito entre as forças produtivas dos homens, já adquiridas, e as suas relações sociais que já não correspondem a essas forças produtivas; no lugar das guerras terríveis que se preparam entre as diferentes classes de uma nação, entre as diferentes nações; no lugar da acção prática e violenta das massas, única que poderá resolver essas colisões; no lugar desse movimento, vasto, prolongado e complicado, o sr. Proudhon põe o movimento diarreico [le mouvement cacadauphin] da sua cabeça. Assim, são os sábios, os homens capazes de apanhar a Deus o seu pensamento íntimo, que fazem a história. O povo miúdo não tem mais do que aplicar as revelações destes. Compreende V. agora porque é o sr. Proudhon inimigo declarado de todo o movimento político. A solução dos problemas actuais não consiste, para ele. na acção pública, mas nas rotações dialécticas da sua cabeça. Como para ele as categorias são as forças motrizes, não há que mudar a vida prática para mudar as categorias. Muito pelo contrário: há que mudar as categorias e a mudança da sociedade real será consequência disso.

No seu desejo de conciliar as contradições, o sr. Proudhon não se interroga sobre se a própria base dessas contradições não deve ser derrubada. Em tudo se assemelha ao doutrinário político que quer o rei, a Câmara dos Deputados e a Câmara dos Pares, como partes integrantes da vida social, como categorias eternas. Procura somente uma nova fórmula para equilibrar estes poderes (cujo equilíbrio consiste precisamente no movimento actual, em que um dos poderes ora é o vencedor ora o escravo do outro). E assim que no século XVIII uma multidão de cabeças medíocres estava ocupada em encontrar a verdadeira fórmula para equilibrar as ordens sociais, a nobreza, o rei, os parlamentos, etc, e no dia seguinte já não havia rei, nem parlamento, nem nobreza. O justo equilíbrio entre esse antagonismo era o derrube de todas as relações sociais, que serviam de base a essas existências feudais e ao antagonismo dessas existências feudais.

Como o sr. Proudhon põe, de um lado, as ideias eternas, as categorias da razão pura e, de outro lado, os homens e a sua vida prática, que é segundo ele a aplicação dessas categorias, V. encontra nele, desde o começo, dualismo entre a vida e as ideias, entre a alma e o corpo — dualismo que se repete sob muitas formas. V. vê agora que esse antagonismo é apenas a incapacidade do sr. Proudhon em compreender a origem e a história profana das categorias que ele diviniza.

A minha carta já vai longa de mais para falar ainda do processo ridículo que o sr. Proudhon move ao comunismo. De momento, V. conceder-me-á que um homem que não compreendeu o estado actual da sociedade, menos ainda deve compreender o movimento que tende a derrubá-lo e as expressões literárias desse movimento revolucionário.

único ponto em que estou perfeitamente de acordo com o sr. Proudhon é na sua aversão pela pieguice socialista. Antes dele, suscitei eu muitas inimizades por troçar do socialismo acarneirado, sentimental, utopista. Mas não terá o sr. Proudhon estranhas ilusões ao opor a sua sentimentalidade de pequeno-burguês, isto é, as suas declamações sobre o lar, o amor conjugal e todas essas banalidades, à sentimentalidade socialista, que em Fourier, por exemplo, é muito mais profunda do que as vulgaridades presunçosas do nosso bom Proudhon? Ele próprio sente tão bem a nulidade das suas razões, a sua incapacidade completa para falar dessas coisas, que se lança, corpo e alma, nos furores, nas exclamações, nas irae hominis probi(2*)que espumeja, pragueja, denuncia, grita contra a infâmia e contra a peste, bate no peito e glorifica-se, perante Deus e os homens, de estar puro das infâmias socialistas! Não é como crítico que ele zomba das sentimentalidades socialistas ou do que toma por sentimentalidades. É como santo, como papa, que excomunga os pobres pecadores e canta as glórias da pequena burguesia e das míseras ilusões amorosas, patriarcais, do lar doméstico. E nada disto é acidental. O sr. Proudhon é, da cabeça aos pés, filósofo, economista da pequena burguesia. O pequeno burguês numa sociedade avançada e por necessidade da sua condição faz-se, por um lado, socialista, e por outro, economista, isto é, fica deslumbrado com a magnificência da alta burguesia e simpatiza com as dores do povo. É ao mesmo tempo burguês e povo. Gaba-se, no foro íntimo da sua consciência, de ser imparcial, de ter encontrado o justo equilíbrio, que tem a pretensão de distinguir-se do meio termo. Um tal pequeno burguês diviniza a contradição, porque a contradição é o fundo do seu ser. Não é senão a contradição social em acção. Deve justificar pela teoria o que é na prática, e o sr. Proudhon tem o mérito de ser o intérprete científico da pequena burguesia francesa, o que é um mérito real, porque a pequena burguesia será parte integrante de todas as revoluções sociais que se preparam.

Desejaria ter podido enviar a V., com esta carta, o meu livro sobre a economia política[N282], mas até à data foi-me impossível mandar imprimir(3*) esta obra e as críticas aos filósofos e socialistas alemães, de que lhe falei em Bruxelas. V. nunca acreditará que dificuldades uma tal publicação encontra na Alemanha, por um lado da parte da polícia e por outro da parte dos livreiros, que são eles próprios os representantes interessados de todas as tendências que ataco. E quanto ao nosso próprio partido, não só é pobre, como uma grande fracção do partido comunista alemão leva a mal que me oponha às suas utopias e às suas declamações .[...]

-------

Notas de Rodapé:

(1*) Antiga colónia holandesa na região das Guianas. a norte do Brasil. (Nota da edição portuguesa.)

(2*) Em latim no texto: cóleras de homem honesto. (Nota da edição portuguesa.)

(3*) No original: "laisser imprimer" (sublinhado nosso). Germanismo de Marx, que utiliza o verbo francês laisser num dos sentidos do verbo alemão lassen, designadamente na expressão drucken lassen: mandar imprimir. Em francês deveria encontrar-se faire imprimer. (Nota da edição portuguesa.)

Notas de Fim de Tomo:

[N282] Trata-se da obra Crítica da Política e da Economia Política que Marx projectava escrever.

Fonte: https://marxists.architexturez.net/portugues/marx/1846/12/28.htm?fbclid=IwY2xjawRDcwpleHRuA2FlbQIxMQBicmlkETFQV1g4bGJPTHVPWE02WE9Yc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHr-ZP06DNq8VtJoxLgEDt4Oy6eCCd3ZoXkOMwgKXBscXu_D90S4Th6MMED00_aem_eLNH-RrTPGFzDK35R1BS0Q


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Propostas liberais de transferência direta

Propostas liberais de transferência direta

Marco Milani

As propostas liberais de transferência direta de renda ganham densidade analítica quando se explicitam os autores, suas filiações teóricas, o contexto histórico de formulação e as obras em que tais ideias aparecem. Essa contextualização mostra que a preocupação com mecanismos monetários de proteção mínima não surge como concessão tardia do liberalismo, mas acompanha sua evolução intelectual ao longo do século XX.

No campo do liberalismo clássico renovado pela Escola de Chicago, a formulação mais sistemática é o Imposto de Renda Negativo (NIT) proposto por Milton Friedman. A ideia aparece de forma madura em Capitalism and Freedom (1962) e é retomada em Free to Choose (1980). O objetivo era substituir a multiplicidade de programas assistenciais por um mecanismo único, integrado ao sistema tributário, capaz de reduzir pobreza preservando incentivos ao trabalho. Trata-se da proposta liberal de transferência de renda mais clara, operacional e influente no debate contemporâneo.

Ainda dentro do ambiente intelectual liberal do pós-guerra, mas vinculado à tradição austríaca e ao ordoliberalismo ampliado, Friedrich Hayek admite a legitimidade de um piso mínimo estritamente definido e não discricionário garantido pelo Estado. Essa posição aparece sobretudo em The Constitution of Liberty (1960) e posteriormente em Law, Legislation and Liberty (1973-1979). Hayek não propõe um programa redistributivo amplo, mas reconhece que uma sociedade livre pode assegurar proteção contra a miséria extrema sem violar a ordem de mercado. Sua posição situa-se entre o minimalismo estatal estrito e o assistencialismo universal.

Também associado à Escola de Chicago, George Stigler discute políticas de combate à pobreza em chave de eficiência econômica e simplicidade administrativa, especialmente no artigo “Director’s Law of Public Income Redistribution” (1970). Embora não formule um modelo tão detalhado quanto Friedman, Stigler converge para a defesa de transferências monetárias diretas focalizadas, criticando subsídios indiretos e programas fragmentados.

No âmbito da economia política constitucional e da escola da escolha pública, James Buchanan examina o problema das transferências sob a perspectiva das regras constitucionais que devem constranger o poder redistributivo do Estado. Para ele, a questão central não é se deve haver assistência, mas sob quais regras gerais e impessoais uma sociedade decide provê-la, de modo a evitar a "exploração fiscal" e a degeneração da política em um jogo de soma zero. Textos como The Limits of Liberty (1975) e seus trabalhos sobre constitucionalismo fiscal indicam que só são aceitáveis transferências mínimas e previsíveis, rigidamente enquadradas por um contrato constitucional que impeça a expansão contínua do gasto público motivada por pressões de grupos de interesse. Trata-se, portanto, de uma defesa extremamente condicional e procedural de uma safety net, subordinada à prioridade de limitar a discricionariedade do "Leviatã".

Gary Becker, âncora da Escola de Chicago, analisa a pobreza através da lente da teoria do capital humano e do comportamento racional. Para ele, uma transferência monetária só se justifica se funcionar como um investimento produtivo que aumente o stock futuro de capital humano (educação, saúde, habilidades), elevando a produtividade e a renda permanente do indivíduo. Essa perspectiva, desenvolvida em Human Capital (1964) e em seus estudos sobre família, transforma a política social em um cálculo de taxa de retorno. Assim, Becker poderia aceitar programas de transferência condicionados e temporários, desde que desenhados como subsídios à acumulação de habilidades, não como renda assistencial permanente. A ajuda estatal, nesse quadro, é um instrumento para corrigir falhas de investimento privado e maximizar eficiência econômica de longo prazo.

No extremo do espectro, o pensador libertário Charles Murray avança uma proposta que inverte a lógica das transferências liberais: uma renda básica universal e incondicional, não como complemento, mas como substituto integral do estado de bem-estar social. Desenvolvida em In Our Hands: A Plan to Replace the Welfare State (2006), sua ideia parte de uma premissa contraintuitiva: uma transferência generosa para todos os cidadãos adultos, sem condicionalidades ou fiscalização, financiada pelo desmonte de todos os outros programas de assistência, previdência e subsídios. Diferente do NIT focalizado de Friedman, a universalidade de Murray não busca eficiência administrativa apenas, mas uma revolução institucional. Seu objetivo explícito é erradicar a burocracia assistencialista, restaurar a autonomia e a responsabilidade individual nas escolhas de vida e revitalizar os laços comunitários espontâneos, mesmo que o custo fiscal inicial seja alto. Para Murray, esse é o preço para sepultar o Welfare State e seu ciclo de dependência.

A leitura conjunta dessas contribuições revela três padrões históricos. Primeiro, não há rejeição liberal uniforme à transferência de renda; o desacordo reside no desenho institucional. Segundo, a evolução vai de propostas focalizadas e integradas ao imposto para modelos que exploram universalidade simples como alternativa à burocracia. Terceiro, todas as formulações permanecem condicionadas a um critério comum: preservar incentivos econômicos e sustentabilidade fiscal.

Assim, o debate liberal sobre transferência direta de renda não pode ser reduzido a negação da política social. Trata-se, antes, de uma disputa interna sobre quais mecanismos redistributivos são compatíveis com uma ordem de mercado funcional. Essa distinção é essencial para compreender tanto a diversidade do liberalismo quanto os limites institucionais das políticas contemporâneas de combate à pobreza.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Breves comentários sobre a obra Falácias da Justiça Social, de T. Sowell

 


Breves comentários sobre a obra Falácias da Justiça Social, de T. Sowell


A obra Falácias da justiça social, de Thomas Sowell, constitui uma reflexão crítica sobre concepções contemporâneas de justiça que, segundo o autor, tendem a desconsiderar a complexidade dos fenômenos sociais e as limitações do conhecimento humano. Ao examinar pressupostos amplamente difundidos no debate público, Sowell procura demonstrar que interpretações baseadas apenas em intenções morais ou em desigualdades observadas podem conduzir a políticas que restringem a liberdade individual, ampliam o poder coercitivo do Estado e produzem consequências adversas não previstas. Nesse sentido, o livro se insere em uma tradição intelectual que valoriza a prudência institucional, a análise de incentivos e a importância de processos sociais descentralizados.

Sob a perspectiva da liberdade, um dos méritos centrais da obra está na defesa de que sociedades abertas dependem menos de planejamentos abrangentes e mais de instituições que permitam experimentação, diversidade de escolhas e correção de erros ao longo do tempo. Sowell enfatiza que a tentativa de reorganizar a sociedade a partir de critérios abstratos de igualdade pode ignorar diferenças históricas, culturais e econômicas entre grupos, além de subestimar a capacidade adaptativa de arranjos espontâneos. Ao recuperar críticas clássicas ao racionalismo construtivista, o autor reforça a ideia de que a liberdade não é apenas um valor moral, mas também uma condição prática para a produção de conhecimento social e para a coordenação eficiente de interesses dispersos.

Outro aspecto favorável destacado pelo livro é a importância da liberdade de expressão e do pluralismo intelectual como mecanismos de autocorreção social. Sowell argumenta que ambientes nos quais opiniões divergentes são desestimuladas tendem a reduzir a qualidade do debate público e a aumentar o risco de decisões coletivas equivocadas. A preservação de espaços abertos de discussão aparece, assim, como elemento essencial para evitar a consolidação de consensos frágeis baseados mais em pressão social do que em evidência empírica. Essa defesa do dissenso construtivo reforça a conexão entre liberdade individual e progresso institucional.

A análise dos incentivos econômicos também contribui para a valorização da liberdade, ao mostrar que intervenções destinadas a produzir resultados considerados justos podem alterar comportamentos de maneira imprevista, prejudicando justamente aqueles que pretendem beneficiar. Para Sowell, instituições que respeitam escolhas individuais e limitam a coerção tendem a gerar maior prosperidade e mobilidade social ao longo do tempo, não por virtude moral abstrata, mas por criarem condições favoráveis à inovação, ao esforço pessoal e à cooperação voluntária.

Embora a obra reconheça a existência de desigualdades e desafios sociais reais, sua contribuição principal consiste em advertir contra soluções que sacrificam a liberdade em nome de objetivos idealizados. Ao enfatizar consequências institucionais, limites do planejamento central e importância do conhecimento disperso, Sowell reafirma a liberdade como fundamento tanto ético quanto prático de sociedades dinâmicas. O resultado é uma análise que, mesmo suscetível a longos debates, oferece defesa consistente de instituições abertas e de uma concepção de justiça vinculada à responsabilidade individual, ao pluralismo e à autonomia humana.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Por que as vozes 'progressistas' mais ruidosas do mundo se calam sobre o Irã?


 

Por que as vozes 'progressistas' mais ruidosas do mundo se calam sobre o Irã?

 

Jake Wallis Simons

 

É estarrecedor que a esquerda de hoje ainda não tenha aprendido com a Revolução Islâmica de 1979.

 

O levante iraniano é uma das três expressões mais comoventes de desafio humano neste século até agora. Se o regime for derrubado, constituirá um ponto de apoio na história do mundo. No entanto, a resposta hipócrita do establishment liberal tem sido tão nauseante quanto enfurecedora.

De Keir Starmer a Gary Lineker, um número surpreendente de nossas vozes mais estridentes em defesa dos "direitos humanos" parece estar levando as palavras do místico persa Rumi – "Para além das ideias de certo e errado, há um campo. Encontrarei você lá" – um tanto literalmente demais.

Certamente, se houve um momento para não ir "para além das ideias de certo e errado", seria agora. No entanto, além de Starmer (uma declaração fraca com França e Alemanha, e recusando-se a proibir o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica) e Lineker (silêncio), exércitos de notáveis ocidentais estão ou minimizando ou simplesmente ignorando esta dramática luta pela liberdade.

Estas são as pessoas que são apaixonadas quando seu ativismo prejudica o Ocidente, mas cujas vozes parecem abandoná-las quando o tirano usa um turbante. Isto é especialmente verdade para aqueles que construíram sua política baseada numa obsessão com a "Palestina". O que, coincidentemente, é algo que eles têm em comum com o regime iraniano.

Lembram-se, por exemplo, do chefe humanitário "oleoso" da ONU, Tom Fletcher? Aquele que falsamente afirmou que "14.000 bebês" enfrentavam fome em Gaza, e depois postou selfies em vídeo admirando-se a si mesmo ajudando corajosamente os palestinos? Até agora, pelo que posso ver, o sujeito não postou nada sobre o Irã. O que, para o "subsecretário-geral de assuntos humanitários", é uma omissão e tanto.

Esta depravação generalizada daqueles que sinalizam sua virtude mais alto é suficiente para fazer você vomitar de raiva. Mas não deveria ser surpresa: a esquerda tem precedentes, especialmente quando se trata do Irã.

Retroceda a 1979 e intelectuais progressistas se esforçavam para apoiar o Aiatolá enquanto ele derrubava o Xá e tomava o poder.

Protest

*Teerã, 1979: Até 17 milhões de pessoas marcharam pacificamente exigindo a remoção do Xá e o retorno do Aiatolá Khomeini Crédito: Kaveh Kazemi/Getty Images*

Tome o filósofo francês de esquerda e pedófilo Michel Foucault. Em sua sábia opinião, a ascensão do Aiatolá era um exemplo de "espiritualidade política" e uma "grande insurreição contra os sistemas globais".

Da mesma forma, Edward Said, o pai do "pós-colonialismo", justificou a revolução como "uma resposta concreta à política específica que os feriu como seres humanos" e criticou os detratores ocidentais do Aiatolá por suas "caricaturas" orientalistas do líder islamista.

Juntos, esses dois homens – e outros como eles – são responsáveis por todo o apodrecimento cerebral antiocidental que hoje incapacita intelectualmente nossos estudantes. É de se admirar que os Emirados Árabes Unidos estejam retirando seus cidadãos das universidades britânicas para protegê-los da radicalização? É surpresa que não tenhamos visto acampamentos nos campi pelas corajosas pessoas do Irã?

Eis a verdade: a esquerda não ama nada mais do que uma revolução, mas apenas quando ela prejudica o Ocidente. Em 1967, quando o Xá visitou Berlim Ocidental, ele foi recebido com protestos de esquerda que rapidamente se tornaram violentos. Isto contribuiu para a radicalização dos progressistas alemães – que se aliaram aos revolucionários iranianos para ajudá-los a derrubar a dinastia Pahlavi – e para o subsequente surgimento da gangue assassina Baader-Meinhof.

Isso não quer dizer que o Xá fosse uma espécie de democrata liberal. Ele era autoritário, corrupto, extravagante e brutal. Em comparação com a teocracia que o substituiu, no entanto, ele era praticamente um humanitário e tinha a vantagem de favorecer grandemente o Ocidente.

Como Ronald Reagan apontou em 1984: "O Xá fez nossas vontades e carregou nosso fardo no Oriente Médio por um bom tempo, e eu realmente pensei que era uma mancha em nosso histórico que o tivéssemos decepcionado", especialmente porque isso significou permitir as ambições do "fanático maníaco" Khomeini.

É estarrecedor que a esquerda de hoje ainda não tenha aprendido com seus erros. Durante a revolução de 1979 que levou o Aiatolá ao poder, comunistas iranianos, guerrilheiros marxistas-leninistas, democratas de esquerda e estudantes se lançaram contra o Xá numa "estranha união" com os islamistas.

Assim que Khomeini se tornou líder supremo, no entanto, seus aliados seculares foram sistematicamente purgados, criminalizados, presos, executados e esmagados.

1979: Ayatollah Khomeini speaks from a balcony in Tehran

Teerã, 1979: O Aiatolá Khomeini fala de uma varanda em Teerã Crédito: Reuters

A lição estava clara: como o crocodilo que oferece uma carona através do rio, os islamistas o devorarão assim que terminarem com você. Está na natureza deles. No entanto, aqui estamos nós novamente, com progressistas calando-se sobre a tirania porque seu verdadeiro animus ainda está reservado para a democracia capitalista, especialmente seu posto avançado no Oriente Médio.

A hipocrisia não poderia ser mais clara. Aos olhos da esquerda, os direitos humanos só importam quando podem ser usados como arma contra o Ocidente. Para os islamistas, é uma combinação feita no céu: da Polícia do Oeste das Midlands às nossas universidades, da ONU às ruas de nossas cidades aos sábados, é de admirar que os jihadistas estejam achando o trabalho de manipulação tão fácil?

Enquanto escrevo, jovens iranianos estão sendo abatidos por jihadistas covardes que anseiam pelo apocalipse. Já a revolução tem seus ícones: o jovem que atacou um esquadrão da morte em motocicleta com um lança-chamas caseiro; as mulheres que foram corajosamente fotografadas acendendo seus cigarros com fotos do Aiatolá; o ativista que arrancou a bandeira do regime na embaixada em Londres no sábado.

Tragicamente, também tem seus mártires. A estudante teeranita de 23 anos, Rubina Aminian, que levou um tiro na nuca e foi enterrada à beira da estrada, é apenas um exemplo revoltante. Imagens revelaram jovens mulheres espreitando de dentro de camburões enquanto são levadas para as masmorras. Pais desesperados foram filmados em necrotérios, procurando por seus filhos dentro dos sacos para cadáveres.

Junto com os israelenses mantendo-se firmes na linha de frente do jihad e os ucranianos enfrentando Putin, estes são os verdadeiros heróis do nosso tempo, não aqueles hipócritas covardes e plásticos da esquerda. Os manifestantes persas são a verdadeira encarnação das palavras de Rumi: "Dance no meio da luta. Dance em seu sangue. Dance quando estiver perfeitamente livre." Viva la revolución!

 

Fonte: https://www.telegraph.co.uk/news/2026/01/13/worlds-loudest-human-rights-voices-silent-on-iran/?WT.mc_id=tmgoff_fb_photo_rights-voices-silent-on-iran%2F&fbclid=IwY2xjawPV3HlleHRuA2FlbQIxMABicmlkETFmdUx4RXNsQnN2U21tbWtOc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHs31Qd_YOQVmBkdJDDti9GMCq5r6_iC3TX1WQrPciH48gTQBM56zjTep1mUH_aem_MtRb_fieusnnCWd8FBFKgw

 

Why are the world’s loudest ‘progressive’ voices silent on Iran?


 

Why are the world’s loudest ‘progressive’ voices silent on Iran?

 

Jake Wallis Simons

 

It is stunning that the Left of today has still not learnt from the 1979 Islamic Revolution

 

The Iranian uprising is one of the three most moving expressions of human defiance so far this century. If the regime is toppled, it will constitute a fulcrum in the history of the world. Yet the hypocritical response from the liberal establishment has been as nauseating as it has been infuriating.

From Keir Starmer to Gary Lineker, a startling number of our loudest “human rights” voices seem to be taking the words of the Persian mystic Rumi – “Out beyond ideas of wrongdoing and rightdoing, there is a field. I’ll meet you there” – rather too literally.

Surely, if there was ever a moment not to go beyond “ideas of wrongdoing and rightdoing”, now would be the time. Yet in addition to Starmer (a weakling statement with France and Germany, and refusing to proscribe the IRGC) and Lineker (silence), armies of Western notables are either downplaying or simply ignoring this dramatic struggle for freedom.

These are the people that are passionate when their activism harms the West, but whose voices seem to desert them when the tyrant wears a turban. This is especially true of those who have built their politics on an obsession with “Palestine”. Which, coincidentally enough, is something they have in common with the Iranian regime.

Remember, for instance, the UN’s oily humanitarian chief, Tom Fletcher? He who falsely claimed that “14,000 babies” were facing starvation in Gaza, and went on to post preening video selfies of himself bravely helping the Palestinians? So far, as far as I can see, the chap has posted nothing on Iran. Which, for the “under-secretary-general for humanitarian affairs”, is quite the omission.

This wholesale depravity from those who signal their virtue loudest is enough to make you vomit with rage. But it should hardly be a surprise: the Left has form, especially when it comes to Iran.

Rewind to 1979 and progressive intellectuals were falling over themselves to support the Ayatollah as he overthrew the Shah and seized power.

Protest

Tehran, 1979: As many as 17 million people marched peacefully to demand the removal of the Shah and the return of Ayatollah Khomeini Credit: Kaveh Kazemi/Getty Images

Take the Leftist French philosopher and paedophile Michel Foucault. In his sage opinion, the rise of the Ayatollah was an example of “spiritualité politique” and a “great insurrection against global systems”.

Similarly, Edward Said, the father of “postcolonialism”, justified the revolution as “a concrete response to the specific policy injuring them as human beings” and criticised the Ayatollah’s Western detractors for their Orientalist “caricatures” of the Islamist leader.

Between them, these two men – and others like them – are responsible for all the anti-Western brain rot that intellectually cripples our students today. Is it any wonder that the United Arab Emirates is withdrawing its citizens from British universities to protect them from radicalisation? Is it any surprise that we have seen no campus encampments for the courageous people of Iran?

Here’s the truth: the Left loves nothing more than a revolution, but only when it harms the West. In 1967, when the Shah visited West Berlin, he was met with Leftist protests that quickly turned violent. This contributed towards the radicalisation of German progressives – who allied with Iranian revolutionaries to help them overthrow the Pahlavi dynasty – and the subsequent emergence of the murderous Baader-Meinhof gang.

That’s not to say that the Shah was some kind of liberal democrat. He was authoritarian, corrupt, extravagant and brutal. By comparison with the theocracy that replaced him, however, he was practically a humanitarian and had the advantage of greatly favouring the West.

As Ronald Reagan pointed out in 1984: “The Shah had done our bidding and carried our load in the Middle East for quite some time, and I did think that it was a blot on our record that we let him down,” especially since that meant enabling the ambitions of the “maniacal fanatic” Khomeini.

It is stunning that the Left of today has still not learnt from its mistakes. During the 1979 revolution that swept the Ayatollah to power, Iranian communists, Marxist-Leninist guerrillas, Left-wing democrats and students threw themselves against the Shah in a “strange union” with the Islamists.

As soon as Khomeini became supreme leader, however, his secular allies were systematically purged, criminalised, imprisoned, executed and crushed.

1979: Ayatollah Khomeini speaks from a balcony in Tehran

Tehran, 1979: Ayatollah Khomeini speaks from a balcony in Tehran Credit: Reuters

The lesson was clear: like the crocodile offering a ride across a river, Islamists will devour you once they’ve finished with you. It’s in their nature. Yet here we are again, with progressives holding their tongues about tyranny because their true animus is still reserved for capitalist democracy, especially its outpost in the Middle East.

The hypocrisy could not be clearer. In the eyes of the Left, human rights only matter when they can be used as a weapon against the West. For the Islamists, it is a match made in heaven: from West Midlands Police to our universities, from the UN to the streets of our cities on Saturdays, is it any wonder that the jihadis are finding the job of manipulation so easy?

As I write, young Iranians are being gunned down by cowardly jihadis who lust after the apocalypse. Already, the revolution has its icons: the young man who attacked a motorcycle death squad with a homemade flamethrower; the women who have been bravely photographed lighting their cigarettes with pictures of the Ayatollah; the activist who tore down the regime’s flag at the embassy in London on Saturday.

Tragically, it also has its martyrs. The 23-year-old Tehrani student Rubina Aminian, who was shot in the back of the head and buried by the roadside, is just one sickening example. Footage has revealed young women peering out of prison vans as they are carted off to the dungeons. Distraught parents have been filmed in morgues, searching for their children in the body bags.

Along with the Israelis standing steadfast on the frontline of jihad and the Ukrainians facing down Putin, these are the true heroes of our time, not those craven, plastic hypocrites of the Left. The Persian protesters are the true embodiment of the words of Rumi: “Dance in the middle of the fighting. Dance in your blood. Dance when you’re perfectly free.” Viva la revolución!