quinta-feira, 28 de maio de 2026

Impactos econômicos da redução da jornada de trabalho

Impactos econômicos da redução da jornada de trabalho

 

Marco Milani*

 

A proposta de redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução proporcional dos salários, tornou-se um dos temas econômicos mais debatidos do país. Seus defensores destacam os potenciais ganhos de qualidade de vida, saúde ocupacional e produtividade. Seus críticos alertam para o aumento dos custos empresariais, perda de competitividade e pressões inflacionárias.

Do ponto de vista estritamente econômico, a redução da jornada sem redução salarial eleva automaticamente o custo da hora trabalhada. Um empregado que atualmente trabalha 44 horas semanais e passa a trabalhar 40 horas mantendo o mesmo salário passa a custar aproximadamente 10% mais por hora. Esse efeito é matemático e independe de posicionamentos ideológicos. A questão central é saber se esse aumento de custo será compensado por ganhos de produtividade, reorganização dos processos produtivos ou absorvido pelas empresas.

As estimativas divulgadas por entidades empresariais sugerem impactos relevantes. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta aumento anual dos custos trabalhistas entre R$ 178 bilhões e R$ 267 bilhões para a economia formal e possível redução de aproximadamente 0,7% do Produto Interno Bruto. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que a adaptação à nova jornada poderia elevar os custos do setor em cerca de R$ 122 bilhões anuais, além de pressionar preços ao consumidor em determinados segmentos. Estudos setoriais da Confederação Nacional do Transporte e de federações estaduais também apontam aumentos significativos de custos operacionais.

Essas projeções, contudo, partem de uma hipótese específica: manutenção integral do atual nível de produção e de atendimento, sem ganhos de produtividade e com necessidade de contratação adicional para recompor as horas perdidas. Em setores intensivos em mão de obra, como comércio varejista, supermercados, restaurantes, hotéis, segurança privada, limpeza e transporte, essa hipótese possui razoável plausibilidade. Uma loja que hoje opera com equipes dimensionadas para 44 horas semanais precisará contratar mais trabalhadores ou ampliar horas extras para manter o mesmo horário de funcionamento. Nesses casos, o impacto econômico tende a ser mais próximo das estimativas apresentadas pelas entidades empresariais.

As experiências internacionais apontam que a redução da jornada de trabalho pode gerar ganhos de produtividade em atividades administrativas, técnicas e intensivas em conhecimento, onde há espaço para eliminar reuniões improdutivas, reduzir interrupções e reorganizar processos. Já em setores dependentes de presença contínua, como comércio, hotelaria, transporte, saúde e parte da indústria, os ganhos foram menores ou inexistentes.

A intensidade dos impactos dependerá também do grau de automação e da capacidade de reorganização das empresas. Organizações que já utilizam tecnologia intensivamente, processos padronizados e indicadores de desempenho tendem a adaptar-se com maior facilidade. Empresas menores, especialmente nos setores de serviços e comércio, possuem menos margem para absorver aumentos de custos ou realizar investimentos em automação, tornando-se mais vulneráveis aos efeitos da mudança.

Independentemente do porte, recomenda-se reorganizar escalas, investir em tecnologia e aumentar a produtividade dos trabalhadores já contratados. O efeito final sobre o emprego dependerá das características de cada setor e do ambiente macroeconômico vigente.

Também não se pode ignorar possíveis efeitos inflacionários. Quando os custos de produção aumentam e não são compensados por ganhos de eficiência, parte desse aumento tende a ser repassada aos preços finais. O grau de repasse dependerá da intensidade da concorrência, da elasticidade da demanda e das condições econômicas gerais. Setores com margens reduzidas e baixa capacidade de absorção de custos apresentam maior probabilidade de reajustes de preços.

Assim, a aprovação da redução da jornada de 44 para 40 horas sem redução salarial certamente aumentará o custo da hora trabalhada. Os impactos econômicos mais negativos ocorrerão principalmente em setores intensivos em mão de obra, com baixa produtividade marginal e pouca capacidade de automação. Em contrapartida, atividades com maior qualificação, tecnologia e potencial de ganhos de eficiência poderão absorver parte significativa dos custos por meio do aumento da produtividade. Como ocorre em praticamente todas as reformas trabalhistas relevantes, o resultado final dependerá menos da mudança legal isoladamente e mais da capacidade de adaptação das empresas, do comportamento da produtividade e das condições gerais da economia brasileira nos anos seguintes à eventual aprovação da medida.

 

*Marco Milani é economista, professor livre-docente da Unicamp.