Relativistas se locupletam com essa ou outras figuras afins, supondo que existam diferentes verdades sobre a mesma realidade. Para eles, inexistiria uma Verdade absoluta. Entretanto, há milênios que aqueles que buscam a Verdade sabem que as limitações e as fragilidades do observador impedem a plena compreensão do objeto no primeiro momento, exigindo-se o esforço e a atitude filosófica para se libertar do cômodo e parvo relativismo.
sábado, 7 de janeiro de 2017
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Método Paulo Freire ou Método Laubach?
Método Paulo Freire
ou Método Laubach?
David Gueiros Vieira
O
Método Laubach de alfabetização de adultos foi criado pelo missionário
protestante norte-americano Frank Charles Laubach (1884 – 1970). Desenvolvido
por Laubach nas Filipinas, em 1915, subsequentemente foi utilizado com grande
sucesso em toda a Ásia e em várias partes da América Latina, durante quase todo
o século XX.
Em
1915, Frank Laubach fora enviado por uma missão religiosa à ilha de Mindanao,
nas Filipinas, então sob o domínio norte-americano, desde o final da guerra
EUA/Espanha. A dominação espanhola deixara à população filipina uma herança de
analfabetismo total, bem como de ódio aos estrangeiros.
Frank C. Laubach
(sentado ao centro) com missionários protestantes em Lake Winnipesaukee, New
Hampshire, no ano de 1961.
A
população moura filipina era analfabeta, exceto os sacerdotes islamitas, que sabiam
ler árabe e podiam ler o Alcorão. A língua maranao (falada pelos mouros) nunca
fora escrita. Laubach enfrentava, nessa sua missão, um problema duplo: como
criar uma língua escrita, e como ensinar essa escrita aos filipinos, para que
esses pudessem ler a Bíblia. A existência de 17 dialetos distintos, naquele
arquipélago, dificultava ainda mais a tarefa em meta.
Com
o auxílio de um educador filipino, Donato Gália, Laubach adaptou o alfabeto
inglês ao dialeto mouro. Em seguida adaptou um antigo método de ensino
norte-americano, de reconhecimento das palavras escritas por meio de retratos
de objetos familiares do dia-a-dia da vida do aluno, para ensinar a leitura da
nova língua escrita. A letra inicial do nome do objeto recebia uma ênfase
especial, de modo que aluno passava a reconhecê-la em outras situações,
passando então a juntar as letras e a formar palavras.
Utilizando
essa metodologia, Laubach trabalhou por 30 anos nas Filipinas e em todo o sul
da Ásia. Conseguiu alfabetizar 60% da população filipina, utilizando essa mesma
metodologia. Nas Filipinas, e em toda a Ásia, um grupo de educadores, comandado
pelo próprio Laubach, criou grafias para 225 línguas, até então não escritas. A
leitura dessas línguas era lecionada pelo método de aprendizagem acima descrito.
Nesse período de tempo, esse mesmo trabalho foi levado do sul da Ásia para a
China, Egito, Síria, Turquia, África e até mesmo União Soviética. Maiores
detalhes da vida e trabalho de Laubach podem ser lidos na Internet, no site
Frank Laubach.
Na
América Latina, o método Laubach foi primeiro introduzido no período da 2ª
Guerra Mundial, quando o criador do mesmo se viu proibido de retornar à Ásia,
por causa da guerra no Pacífico. No Brasil, este foi introduzido pelo próprio
Laubach, em 1943, a pedido do governo brasileiro. Naquele ano, esse educador
veio ao Brasil a fim de explicar sua metodologia, como já fizera em vários
outros países latino-americanos.
Lembro-me
bem dessa visita, pois, ainda que fosse muito jovem, cursando o terceiro ano
Ginasial, todos nós estudantes sabíamos que o analfabetismo no Brasil ainda
beirava a casa dos 76% – o que muito nos envergonhava – e que este era o maior
empecilho ao desenvolvimento do país.
A
visita de Laubach a Pernambuco causou grande repercussão nos meios estudantis.
Ele ministrou inúmeras palestras nas escolas e faculdades — não havia ainda uma
universidade em Pernambuco — e conduziu debates no Teatro Santa Isabel.
Refiro-me apenas a Pernambuco e ao Recife, pois meus conhecimentos dos eventos
naquela época não iam muito além do local onde residia.
Houve
também farta distribuição de cartilhas do Método Laubach, em espanhol, pois a
versão portuguesa ainda não estava pronta. Nessa época, a revista Seleções do
Readers Digest publicou um artigo sobre Laubach e seu método — muito lido e
comentado por todos os brasileiros de então, que, em virtude da guerra, tinham
aquela revista como único contato literário com o mundo exterior.
Naquele
ano, de 1943, o Sr. Paulo Freire já era diretor do Sesi, de Pernambuco — assim
ele afirma em sua autobiografia — encarregado dos programas de educação daquela
entidade. No entanto, nessa mesma autobiografia, ele jamais confessa ter tomado
conhecimento da visita do educador Laubach a Pernambuco. Ora, ignorar tal
visita seria uma impossibilidade, considerando-se o tratamento VIP que fora
dado àquele educador norte-americano, pelas autoridades brasileiras, bem como
pela imprensa e pelo rádio, não havendo ainda televisão. Concomitante e
subitamente, começaram a aparecer em Pernambuco cartilhas semelhantes às de
Laubach, porém com teor filosófico totalmente diferente. As de Laubach, de
cunho cristão, davam ênfase à cidadania, à paz social, à ética pessoal, ao
cristianismo e à existência de Deus. As novas cartilhas, utilizando idêntica metodologia,
davam ênfase à luta de classes, à propaganda da teoria marxista, ao ateísmo e a
conscientização das massas à sua “condição de oprimidas”. O autor dessas outras
cartilhas era o genial Sr. Paulo Freire, diretor do Sesi, que emprestou seu
nome à essa “nova metodologia” — da utilização de retratos e palavras na
alfabetização de adultos — como se a mesma fosse da sua autoria.
Tais
cartilhas foram de imediato adotadas pelo movimento estudantil marxista, para a
promulgação da revolução entre as massas analfabetas. A artimanha do Sr. Paulo
Freire “pegou”, e esse método é hoje chamado Método Paulo Freire, tendo o mesmo
sido apadrinhado por toda a esquerda, nacional e internacional, inclusive pela
ONU.
No
entanto, o método Laubach — o autêntico — fora de início utilizado com grande
sucesso em Pernambuco, na alfabetização de 30.000 pessoas da favela chamada
“Brasília Teimosa”, bem como em outras favelas do Recife, em um programa
educacional conduzido pelo Colégio Presbiteriano Agnes Erskine, daquela cidade.
Os professores eram todos voluntários. Essa foi a famosa Cruzada ABC, que
empolgou muita gente, não apenas nas favelas, mas também na cidade do Recife, e
em todo o Estado. Esse esforço educacional é descrito em seus menores detalhes
por Jules Spach, no seu recente livro, intitulado, Todos os Caminhos Conduzem
ao Lar (2000).
O
Método Laubach foi também introduzido em Cuba, em 1960, em uma escola normal em
Bágamos. Essa escola pretendia preparar professores para a alfabetização de
adultos. No entanto, logo que Fidel Castro assumiu o controle total do poder em
Cuba, naquele mesmo ano, todas as escolas foram nacionalizadas, inclusive a
escola normal de Bágamos. Seus professores foram acusados de “subversão”, e
tiveram de fugir, indo refugiar-se em Costa Rica, onde continuaram seu
trabalho, na propagação do Método Laubach, criando então um programa de
alfabetização de adultos, chamado Alfalit.
A
organização Alfalit foi introduzida no Brasil, e reconhecida pelo governo
brasileiro como programa válido de alfabetização de adultos. Encontra-se hoje
na maioria dos Estados: Santa Catarina (1994), Alagoas, Ceará, Distrito
Federal, Goiás, Sergipe, São Paulo, Paraná, Paraíba e Rondônia (1997);
Maranhão, Pará, Piauí e Roraima (1998); Pernambuco e Bahia (1999).
A
oposição ao Método Laubach ocorreu desde a introdução do mesmo, em Pernambuco,
no final da década de 1950. Houve tremenda oposição da esquerda ao mencionado
programa da Cruzada ABC, em Pernambuco, especialmente porque o mesmo não
conduzia à luta de classes, como ocorria nas cartilhas plagiadas do Sr. Paulo
Freire. Mais ainda, dizia-se que o programa ABC estava “cooptando” o povo,
comprando seu apoio com comida, e que era apenas mais um programa
“imperialista”, que tinha em meta unicamente “dominar o povo brasileiro”.
Como
a fome era muito grande na Brasília Teimosa, os dirigentes da Cruzada ABC, como
maneira de atrair um maior número de alunos para o mesmo, se propuseram criar
uma espécie de “bolsa-escola” de mantimentos. Era uma cesta básica, doada a
todos aqueles que se mantivessem na escola, sem nenhuma falta durante todo o
mês. Essa bolsa-escola tornou-se famosa no Recife, e muitos tentavam se
candidatar a ela, sem serem analfabetos ou mesmo pertencentes à comunidade da
Brasília Teimosa. Bolsa-escola fora algo proposto desde os dias do Império,
conforme pode-se conferir no livro de um educador do século XIX, Antônio
Almeida, intitulado O Ensino Público, reeditado em 2003 pelo Senado Federal,
com uma introdução escrita por este Autor.
No
entanto, a ideia da bolsa-escola foi ressuscitada pelo senhor Cristovam
Buarque, quando governador de Brasília. Este senhor, que é pernambucano, fora
estudante no Recife nos dias da Cruzada ABC, tão atacada pelos seus
correligionários de esquerda. Para a esquerda recifense, doar bolsa-escola de
mantimentos era equivalente a “cooptar” o povo. Em Brasília, como “ideia genial
do Sr. Cristovam Buarque”, esta é hoje abençoada pela Unesco, espalhada por
todo o mundo e não deixa de ser o conceito por trás do programa Fome Zero, do
ilustre Presidente Lula.
O
sucesso da campanha ABC — que incluía o Método Laubach e a bolsa-escola — foi
extraordinário, sendo mais tarde encampado pelo governo militar, sob o nome de
Mobral. Sua filosofia, no entanto, foi modificada pelos militares: os
professores eram pagos e não mais voluntários, e a bolsa-escola de alimentos não
mais adotada. Este novo programa, por razões óbvias, não foi tão bem-sucedido
quanto a antiga Cruzada ABC, que utilizava o Método Laubach.
A
maior acusação à Cruzada ABC, que se ouvia da parte da esquerda pernambucana,
era que o Método Laubach era “amigo da ignorância” — ou seja, não estava ligado
à teoria marxista, falhavam em esclarecer seus detratores — e que conduzia a
“um analfabetismo maior”, ou seja, ignorava a promoção da luta de classes, e
defendia a harmonia social. Recentemente, foi-me relatado que o auxílio doado
pelo MEC a pelo menos um programa de alfabetização no Rio de Janeiro — que
utiliza o Método Laubach, em vez do chamado “Método Paulo Freire” — foi
cortado, sob a mesma alegação: que o Método Laubach estaria “produzindo o
analfabetismo” no Rio de Janeiro. Em face da recusa dos diretores do programa
carioca, de modificarem o método utilizado, o auxílio financeiro do MEC foi
simplesmente cortado.
Não
há dúvida que a luta contra o analfabetismo, em todo o mundo, encontrou seu
instrumento mais efetivo no Método Laubach. Ainda que esse método hoje tenha
sido encampado sob o nome do Sr. Paulo Freire. Os que assim procederam não
apenas mudaram o seu nome, mas também o desvirtuaram, modificando inclusive sua
orientação filosófica. Concluindo: o método de alfabetização de adultos, criado
por Frank Laubach, em 1915, passou a ser chamado de “Método Paulo Freire”, em
terras tupiniquins. De tal maneira foi bem-sucedido esse embuste, que hoje será
quase que impossível desfazê-lo.
Referências
AYRES,
Antônio Tadeu. Como tornar o ensino eficaz. Casa Publicadora das Assembléias de
Deus, Rio de Janeiro, 1994.
BRINER,
Bob. Os métodos de administração de Jesus. Ed. Mundo Cristão, SP, 1997.
CAMPOLO,
Anthony. Você pode fazer a diferença. Ed. Mundo Cristão, SP, 1985.
GONZALES,
Justo e COOK, Eulália. Hombres y Ángeles.
Ed. Alfalit, Miami, 1999.
GONZALES,
Justo. História de un milagro. Ed. Caribe, Miami
(s.d.).
GONZALES,
Luiza Garcia de. Manual para preparação de alfabetizadores voluntários. 3ª ed.,
Alfalit Brasil, Rio de Janeiro, 1994.
GREGORY,
John Milton. As sete leis do ensino. 7ª ed., Rio de Janeiro, JUERP, 1994.
HENDRICKS,
Howard. Ensinando para transformar vidas. Ed. Betânia, Belo Horizonte, 1999.
LAUBACH, Frank C.. Os milhões
silenciosos falam. s. l., s.e., s.d.
MALDONADO,
Maria Cereza. História da vida inteira. Ed. Vozes, 4ª ed., SP, 1998.
SMITH,
Josie de. Luiza. Ed. la Estrella, Alajuela, Costa Rica, s.d.
SPACH,
Jules. Todos os Caminhos Conduzem ao Lar. Recife, PE, 2000.
Fonte:
Um engodo chamado Método Paulo Freire
Um engodo chamado
Método Paulo Freire
Félix Maier
Em 1943, foi introduzida no Brasil a
Cruzada ABC (Ação Básica Cristã), com
sede em Recife, PE. A Cruzada era um programa de alfabetização baseado no
Método Laubach, que incluía, ainda, a bolsa-escola para famílias pobres. (E
ainda dizem que o pernambucano Cristóvam Buarque, que, com certeza, conhecia o
Método Laubach, é o criador do bolsa-escola.) O missionário norte-americano
Frank Charles Laubach desenvolveu seu método de alfabetização de adultos
inicialmente nas Filipinas, onde, em 30 anos, conseguiu alfabetizar 60% de sua
população.
No Brasil, o Método Laubach foi deturpado e
substituído pelo Método Paulo Freire: “Concomitante e subitamente, começaram a
aparecer em Pernambuco cartilhas semelhantes às de Laubach, porém com teor
filosófico totalmente diferente. As de Laubach, de cunho cristão, davam ênfase
à cidadania, à paz social, à ética pessoal, ao cristianismo e à existência de
Deus. As novas car-tilhas, utilizando idêntica metodologia, davam ênfase à luta
de classes, à propaganda da teoria marxista, ao ateísmo e a consci-entização
das massas à sua ‘condição de oprimidas’. O autor dessas outras cartilhas era o
genial Sr. Paulo Freire, diretor do Sesi, que emprestou seu nome à essa ‘nova
metodologia’ - da utilização de retratos e palavras na alfabetização de adultos
- como se a mesma fosse da sua autoria” (David Gueiros Vieira, in Método Paulo
Freire ou Método Laubach?).
O Movimento de Educação de Base (MEB) era uma
organização criada pela Igreja Católica, financiada pelo governo João Goulart e
administrada por militantes da esquerda católica, muitos dos quais eram membros
da Ação Popular, que mais tarde se tornaria um grupo terrorista e promoveria um
atentado no Aeroporto de Guararapes, Recife, em 1966. Baseado nas ideias
marxistas de Paulo Freire, autor do livro pauleira Pedagogia do Oprimido, o MEB
funcionava através de escolas radiofônicas, sob a direção de um líder local
(padre ou camponês), em contato com as Ligas Camponesas.
Afinal, o que vem a ser o Método Paulo
Freire, tão enaltecido pelos esquerdistas que tomaram de assalto as salas de
aula das escolas e das universidades brasileiras? Ninguém melhor do que o
historiador Paul Johnson para explicar esse engodo da mais pura ideologia
marxista:
“O professor
brasileiro Paulo Freire, ... descobriu que qualquer adulto pode aprender a ler
em quarenta horas suas primeiras palavras que conseguir decifrar se estiverem
carregadas de significação política; ... apenas a mobilização de toda a
população pode conduzir à cultura popular. As escolas são contraprodutivas... O
melhor caminho a seguir é um rompimento com a educação institucional rumo à
educação popular. O método se baseia no uso de palavras e expressões empregadas
conscientemente de forma dúbia e duvidosa, de acordo com o conceito que seu autor
tem de ‘educação libertadora’ e que pode ser assim resumido no conhecido jargão
esquerdista: ‘... há uma incompatibilidade estrutural entre os interesses da
classe dominante e a verdade...; a verdade está do lado dos oprimidos e não
pode ser conquistada senão na luta contra a classe dominante...; a verdade é
revolucionária, não deve ser buscada e sim feita’ ” (Paul Johnson, in Inimigos
da Sociedade - cit. COUTO, 1984: 39).
“O avanço do processo
revolucionário comunista antes de Março de 1964, na área da educação, foi em
grande parte creditado ao uso do Método Paulo Freire, que tem potencial para
materializar, com inegável eficiência, aquela afirmativa de Fred Schwarz: ‘O
primeiro passo na formação de um comunista é a sua desilusão com o
capitalismo’. Hoje, o método e seu autor vêm sendo reabilitados em vários
pontos do país, aparentemente com a mesma função revolucionária de antes. A
alfabetização que propicia, baseada nas condições reais em que vive o aluno,
explora largamente as contradições internas da sociedade para desmoralizar o
capitalismo, e através dele a democracia, deixando a porta aberta para a opção
socialista” (COUTO, 1984: 38-9).
A ressurreição da múmia comunista chamada
Paulo Freire não se observa apenas nos campi cada vez mais estéreis das
faculdades de Educação, mas também nos campos improdutivos do messetê: “De
acordo com os ideais socialistas e coletivos, calcados no princípio da
solidariedade, o projeto educacional do MST tem como base teórica Paulo Freire,
Florestan Fernandes, Che Guevara, o cubano José Martí, o russo A. Makarenko e
clássicos como Marx, Engels, Mao Tsé-Tung e Gramsci” (revista Sem Terra,
Out-Nov-Dez 1997, pg. 27).
Periodicamente, o mito de palha, que foi
secretário de Educação do governo Luíza Erundina na cidade de São Paulo, é
incensado na mídia para adoração, como o artigo da Gazeta do Povo, de
19/01/2013, Pela união na construção do saber. Sem direito a contraditório.
Em 2012, o plagiário de Laubach foi
declarado, por Lei, patrono da educação brasileira. Não há nome melhor para
explicar o grau de mediocridade de nossas escolas e universidades,
principalmente as faculdades de Educação.
Nota:
COUTO, A. J. Paula. O desafio da subversão. Impresso na Gráfica FEPLAM, Porto
Alegre, RS, 1984.
Fonte:
Vocês conhecem alguém que tenha sido alfabetizado pelo método de Paulo Freire?
Viva Paulo Freire!
Olavo de Carvalho
(Texto publicado no Diário
do Comércio, 19 de abril de 2012)
Vocês conhecem alguém que tenha sido
alfabetizado pelo método Paulo Freire? Alguma dessas raras criaturas, se é que
existem, chegou a demonstrar competência em qualquer área de atividade técnica,
científica, artística ou humanística? Nem precisam responder. Todo mundo já
sabe que, pelo critério de “pelos frutos os conhecereis”, o célebre Paulo
Freire é um ilustre desconhecido.
As técnicas que ele inventou foram aplicadas no
Brasil, no Chile, na Guiné-Bissau, em Porto Rico e outros lugares. Não
produziram nenhuma redução das taxas de analfabetismo em parte alguma.
Produziram, no entanto, um florescimento
espetacular de louvores em todos os partidos e movimentos comunistas do mundo.
O homem foi celebrado como gênio, santo e profeta.
Isso foi no começo. A passagem das décadas
trouxe, a despeito de todos os amortecedores publicitários, corporativos e
partidários, o choque de realidade. Eis algumas das conclusões a que chegaram,
por experiência, os colaboradores e admiradores do sr. Freire:
“Não há originalidade no que ele diz, é a
mesma conversa de sempre. Sua alternativa à perspectiva global é retórica
bolorenta. Ele é um teórico político e ideológico, não um educador.” (John Egerton, “Searching for Freire”, Saturday Review of Education,
Abril de 1973.)
“Ele deixa questões básicas sem resposta. Não
poderia a ‘conscientização’ ser um outro modo de anestesiar e manipular as
massas? Que novos controles sociais, fora os simples verbalismos, serão usados
para implementar sua política social? Como Freire concilia a sua ideologia
humanista e libertadora com a conclusão lógica da sua pedagogia, a violência da
mudança revolucionária?” (David M. Fetterman,
“Review of The Politics of Education”, American Anthropologist, Março 1986.)
“[No livro de Freire] não chegamos nem perto
dos tais oprimidos. Quem são eles? A definição de Freire parece ser ‘qualquer
um que não seja um opressor’. Vagueza, redundâncias, tautologias, repetições
sem fim provocam o tédio, não a ação.” (Rozanne Knudson, Resenha da Pedagogy of the Oppressed; Library Journal,
Abril, 1971.)
“A ‘conscientização’ é um projeto de
indivíduos de classe alta dirigido à população de classe baixa. Somada a essa
arrogância vem a irritação recorrente com ‘aquelas pessoas’ que teimosamente
recusam a salvação tão benevolentemente oferecida: ‘Como podem ser tão cegas?’”
(Peter L. Berger, Pyramids of Sacrifice, Basic Books, 1974.)
“Alguns vêem a ‘conscientização’ quase como
uma nova religião e Paulo Freire como o seu sumo sacerdote. Outros a vêem como
puro vazio e Paulo Freire como o principal saco de vento.” (David Millwood, “Conscientization and What It's All About”, New
Internationalist, Junho de 1974.)
“A Pedagogia do Oprimido não ajuda a entender
nem as revoluções nem a educação em geral.” (Wayne J. Urban, “Comments on Paulo
Freire”, comunicação apresentada à American Educational Studies Association em
Chicago, 23 de Fevereiro de 1972.)
“Sua aparente inabilidade de dar um passo
atrás e deixar o estudante vivenciar a intuição crítica nos seus próprios
termos reduziu Freire ao papel de um guru ideológico flutuando acima da
prática.” (Rolland G. Paulston, “Ways of Seeing Education and
Social Change in Latin America”, Latin American Research Review. Vol. 27, No. 3,
1992.)
“Algumas pessoas que trabalharam com Freire
estão começando a compreender que os métodos dele tornam possível ser crítico a
respeito de tudo, menos desses métodos mesmos.” (Bruce O. Boston, “Paulo Freire”, em Stanley Grabowski, ed., Paulo
Freire, Syracuse University Publications in Continuing Education, 1972.)
Outros julgamentos do mesmo teor encontram-se
na página de John Ohliger, um dos muitos devotos desiludidos
(http://www.bmartin.cc/dissent/documents/Facundo/Ohliger1.html#I).
Não há ali uma única crítica assinada por
direitista ou por pessoa alheia às práticas de Freire. Só julgamentos de quem
concedeu anos de vida a seguir os ensinamentos da criatura, e viu com seus
própios olhos que a pedagogia do oprimido não passava, no fim das contas, de
uma opressão da pedagogia.
Não digo isso para criticar a nomeação
póstuma desse personagem como “Patrono da Educação Nacional”. Ao contrário:
aprovo e aplaudo calorosamente a medida. Ninguém melhor que Paulo Freire pode
representar o espírito da educação petista, que deu aos nossos estudantes os
últimos lugares nos testes internacionais, tirou nossas universidades da lista
das melhores do mundo e reduziu para um tiquinho de nada o número de citações
de trabalhos acadêmicos brasileiros em revistas científicas internacionais.
Quem poderia ser contra uma decisão tão coerente com as tradições pedagógicas
do partido que nos governa? Sugiro até que a cerimônia de homenagem seja
presidida pelo ex-ministro da Educação, Fernando Haddad, aquele que escrevia
“cabeçário” em vez de “cabeçalho”, e tenha como mestre de cerimônias o
principal teórico do Partido dos Trabalhadores, dr. Emir Sader, que escreve
“Getúlio” com LH. A não ser que prefiram chamar logo, para alguma dessas
funções, a própria presidenta Dilma Roussef, aquela que não conseguia lembrar o
título do livro que tanto a havia impressionado na semana anterior, ou o
ex-presidente Lula, que não lia livros porque lhe davam dor de cabeça.
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domingo, 4 de setembro de 2016
O colapso da vontade (Viva o impeachment!)
O colapso da vontade
Editorial do jornal O
Estado de S. Paulo – 04/09/16
Ao
contrário do que alardeiam os petistas, o impeachment da presidente Dilma
Rousseff não foi um golpe contra a democracia, mas sim a interrupção do
processo de degradação da democracia, liderado pelo partido que se dizia
campeão da ética na política e que prometia o paraíso da retidão moral contra
“tudo isso que está aí”. Foram mais de dez anos em que o País foi submetido a uma
espécie de lavagem cerebral, por meio da qual se procurou desmoralizar toda
forma de crítica ao projeto lulopetista, qualificando desde sempre seus
opositores como “inimigos do povo” e, ultimamente, como “golpistas”.
Ao mesmo tempo, o PT, sob a liderança
inconteste de Lula, passou todos esses anos empenhado em desmoralizar o
Congresso, oferecendo a partidos e políticos participação no grande plano de
assalto ao Estado arquitetado por aqueles que, tanto na cúpula petista como nos
altos escalões do governo, tinham completo conhecimento do que ocorria. Tudo
isso visava em primeiro lugar não ao enriquecimento pessoal da tigrada, embora
uns e outros tenham se lambuzado com o melado que jorrava de estatais, mas sim
à destruição do preceito básico de qualquer democracia: a alternância no poder.
A corrupção, um mal que assola o Brasil desde o tempo das naus cabralinas,
tornou-se pela primeira vez uma política de Estado e uma estratégia política.
Na mentalidade autoritária petista, a
democracia é e sempre foi um estorvo, pois pressupõe que maiorias eventuais não
podem tudo e devem se subordinar ao que prevê a Constituição, passando
regularmente por testes de legitimidade. Logo, para se manter no poder para
sempre, como pretendia, o PT tratou de proceder à demolição da própria
política, inviabilizando qualquer forma de debate e dividindo a sociedade em
“nós” e “eles”.
Com isso, as vitórias eleitorais, a partir da
chegada do chefão Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, foram tratadas pelos
governantes petistas como prova de que estavam acima de quaisquer limites
administrativos, políticos, éticos e legais – portanto, dispensados de
confirmar sua legitimidade. Desde sua fundação, o PT sempre entendeu que não
deveria se submeter a nenhum limite de natureza institucional porque se
considerava portador da verdade histórica. Com Lula na Presidência, o PT
interpretou os votos que recebeu como uma espécie de realização de sua
superioridade moral – e o partido apresentou-se como o único capaz de entender
e satisfazer os desejos populares.
Foi assim que Lula se apresentou ao País e ao
mundo como o demiurgo capaz de elevar o Brasil à condição de potência mundial
e, de lambuja, transformar os pobres brasileiros em felizes consumidores de
eletrodomésticos, carros e passeios de avião. Munido de grande carisma e de
notória caradura, Lula prometeu um sem-número de obras grandiosas e projetos
miraculosos. Entregou, em vez disso, apenas slogans, discursos e bravatas.
Mas o
País, como que hipnotizado pelo gabola de Garanhuns, deixou-se enlevar por
aquele palavrório vazio e, aparentemente destituído da capacidade crítica, não
apenas reelegeu Lula, como abriu as portas da Presidência da República para a
mais inepta administradora pública de que a história brasileira tem registro.
Dilma Rousseff, no entanto, não pode ser vista como uma aberração. Ela não
existiria politicamente se não fosse Lula, tampouco teria governado do modo
desastroso como governou se não fosse petista. Pois os petistas, como
demonstrou fartamente a agora destituída presidente, acreditam, graças às suas
delirantes fantasias, que dinheiro público surge e se multiplica unicamente em
razão da vontade do governante. Quem quer que ouse questionar essa visão
irresponsável é considerado “invejoso” e “preconceituoso”, como Lula anunciou
certa vez em 2007, ocasião em que disse que “é fácil ajudar os pobres”.
O
impeachment de Dilma e a desmoralização do PT funcionam, portanto, como uma
chance de ouro para o restabelecimento da racionalidade política e
administrativa no País. Mais importante do que isso, o ocaso da era lulopetista
restitui aos brasileiros a própria democracia – imperfeita, incompleta e
carente de reformas, mas certamente preferível aos sonhos autoritários de Lula,
de Dilma e da tigrada.
Fonte:
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ímpeachment
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
Brasil: há esperança
Uma porta para o
século 21
Editorial do Jornal O
Estado de São Paulo – p. A3 – 04/08/2016
O Brasil tem uma nova chance de ser uma
economia do século 21, produtiva, eficiente, inovadora, capaz de competir em
todo o mundo e de criar oportunidades para todos. Para isso terá de se integrar
na cadeia internacional de produção, numa política inteiramente oposta àquela
implantada em 2003. Naquele ano o PT assumiu o governo federal e decidiu manter
o País, apesar de todo o seu potencial, na terceira divisão da economia global.
Na terceira, de fato, porque na segunda jogam os emergentes guiados por uma
pauta de modernização e administrados de forma prudente e pragmática. O caminho
para a modernidade passa por uma nova política de comércio e de desenvolvimento
produtivo, tal como propõe estudo elaborado pelo Centro de Debate de Políticas
Públicas (CDPP), de São Paulo, e pelo Centro de Estudos de Integração e
Desenvolvimento (Cindes), do Rio de Janeiro.
Abertura é apenas uma das marcas dessa
política, já testada com resultados muito bons em dezenas de países. Mas a
palavra abertura provoca reações negativas em muitos empresários e
sindicalistas.
Para uma parcela significativa do
empresariado, é sempre muito cedo para reduzir tarifas e abandonar políticas de
conteúdo nacional, como se o Brasil estivesse ainda no estágio da
industrialização nascente. A reação negativa inclui, quase sempre, referências
a desajustes macroeconômicos, a problemas de competitividade e à cobrança de
incentivos governamentais.
Do lado sindical, o discurso costumeiro
inclui o risco do desemprego como efeito da competição estrangeira – um temor explorado
com sucesso em campanhas como a do republicano Donald Trump. Para evitar a
mistificação e neutralizar a conversa dos aproveitadores do atraso e dos
favores oficiais, é preciso pôr a discussão nos termos corretos.
Não há como pensar separadamente, em especial
num país emergente ou em desenvolvimento, as políticas comercial, de
crescimento e de modernização da economia. Para começar, a agenda proposta nos
estudos do Cindes e do CDPP inclui uma revisão e reorganização de tarifas de
importação em níveis diferenciados. Haveria redução, até porque muitas tarifas
são escandalosamente altas, mas nenhum setor seria entregue sem proteção, de um
dia para outro, aos competidores estrangeiros. A mudança, no entanto, deveria
ser suficiente para estimular os empresários a pensar com mais seriedade em
temas como produtividade e qualidade.
A mudança deveria incluir, naturalmente, a
eliminação da política de conteúdo nacional, ineficiente, custosa e estimulante
de bandalheiras, como ficou evidenciado na experiência dos últimos anos. Essa
política foi um dos componentes da devastação econômica e financeira da
Petrobrás. Outra aberração, o programa de criação de campeãs nacionais, já foi
abandonada, depois de muitos erros e de muito desperdício de dinheiro público.
A liquidação final e completa dos benefícios fiscais a setores selecionados
também é inadiável.
Os itens listados até aqui compõem um
programa de profilaxia econômica e até moral. Mas uma reforma efetiva tem de
incluir uma porção de outros itens. Não é necessário um estudo assinado por
economistas de primeiro time para listar algumas das mudanças mais importantes.
É preciso tornar a tributação menos prejudicial ao investimento, à formação de
custos e à competitividade. É indispensável diminuir a burocracia oficial e
simplificar o cumprimento de exigências legais pelas empresas. É urgente mudar
a diplomacia econômica, para facilitar a integração do País nos principais
fluxos de comércio e de produção – o oposto do terceiro-mundismo em vigor a
partir de 2003. É indispensável tornar mais eficiente o governo e revitalizar o
investimento público.
Resta, enfim, passar a limpo a política
educacional, a longo prazo o fator mais importante da competitividade. São
mudanças politicamente complicadas, tanto mais quanto mais o empresariado
insistir na manutenção do protecionismo, dos favores fiscais e financeiros e da
mediocridade.
A Justiça e os baderneiros: sobre os movimentos grevistas nas universidades públicas
A Justiça e os baderneiros
Editorial do Jornal O Estado de São Paulo – p. A3 – 04/08/2016
Na
mesma semana em que alunos da Unicamp invadiram a reunião do Conselho Universitário
para protestar contra o corte do ponto de servidores em greve desde maio e
organizaram piquetes para tentar obstruir o início do semestre letivo, o juiz
Guilherme Fernandes Cruz, da 9.ª Vara Civil de Campinas, acolheu uma ação por
dano moral impetrada pelo professor Serguei Popov, do Instituto de Matemática,
Estatística e Computação Científica, contra os estudantes que o têm impedido de
dar aula, batendo bumbo na sala de aula e apagando o que escreve no quadro
negro. O magistrado também determinou a retirada das redes sociais de textos e
imagens ofensivas ao docente, sob pena de multa de R$ 1 mil por dia. Foi a
primeira vez na história da Unicamp que um professor recorreu à Justiça sem
medo das retaliações dos grupelhos radicais. Com a decisão, a maioria dos
alunos defendeu o fim de qualquer tipo de protesto e a retomada das aulas.
Infelizmente,
atos de baderna não são raros nas universidades públicas paulistas. Desde que
um pequeno grupo de alunos e servidores da USP, Unicamp e Unesp entrou em greve,
há três meses, portões de acesso aos campi têm sido trancados, prédios
administrativos têm sido ocupados e depredados e batucadas impedem os
professores de lecionar. Em algumas unidades, o barulho é tanto e as agressões
morais são tão violentas que docentes não conseguem permanecer em suas salas.
Nas
três universidades públicas estaduais, esses grupelhos de estudantes e
servidores manipulados por pequenos partidos de esquerda radical justificam o
vandalismo e as agressões morais em nome da luta pela implantação de democracia
direta. Segundo eles, suas “intervenções em sala são discutidas coletivamente
em assembleia e têm como objetivo central a discussão democrática e a garantia
de que nenhum grevista será prejudicado com a aplicação de provas, trabalhos e
faltas”.
Numa
afronta à ordem jurídica, também afirmam que “as greves por si sós já preveem
que as aulas não aconteçam e, portanto, quem insiste em contrariar essa decisão
estaria desrespeitando o direito de greve, tentando impor o interesse
individual sobre a decisão coletiva e democrática”. E ainda acusam os
dirigentes universitários de se negarem a “discutir” as reivindicações. O
problema é que, por serem irrealistas, elas foram formuladas para não serem
atendidas, dando a esses grupelhos o pretexto para praticar agressões e
vandalismos. Apesar da grave crise financeira de todo o setor público, os
servidores querem reajustes salariais e mais vagas em creches e os estudantes
pedem mais alojamentos e restaurantes. O denominador comum dos protestos das
duas categorias é a acusação de que o governo estadual estaria “desmontando” a
USP, a Unicamp e a Unesp.
O
desgaste das reivindicações e a banalização das agressões, intimidações e
ocupações são apenas um dos lados do problema. O outro lado é a invocação de um
arremedo de democracia direta como manto que oculta a defesa de ideologias
autoritárias e a usurpação, por assembleias controladas por minorias radicais,
de direitos e deveres estabelecidos pela Constituição. Qualquer reação das
autoridades com base na lei é convertida em denúncia de “criminalização” do
movimento estudantil. Qualquer pedido judicial de reintegração de posse é
classificado como arbítrio. A tentativa de aplicação de sanções a quem afronta
regimentos e leis é denunciada como opressão. E os professores que manifestam
nos órgãos colegiados sua indignação com esse estado de coisas se tornam
vítimas de ataques à sua honra pelas redes sociais.
No
Estado de Direito, demonstrações de intolerância e radicalismo como essas não
podem ser toleradas, sob o risco de destruir não só as mais importantes
universidades do País, mas, também, as instituições democráticas. Por reafirmar
essa lição básica e impedir que minorias radicais continuem tumultuando os
campi universitários, a decisão do juiz da 9.ª Vara Civil de Campinas não
poderia ter vindo em melhor hora.
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