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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Virtude Falaciosa


(texto publicado no jornal Correio Popular - Campinas - em 10/12/15 - p.A2)

Virtude falaciosa

Marco Milani*

A crise econômica não começou agora. Apenas ficaram mais evidentes os efeitos nocivos da desastrada e ideologizada condução da economia brasileira nos últimos anos.
Aos dados estatísticos que comprovam o aumento do desemprego, a alta inflacionária, a elevação das taxas de juros e a queda constante do Produto Interno Bruto, soma-se a instabilidade política marcada por escândalos de corrupção e favorecimento governista.
Como se não bastasse a constatação da inabilidade na formulação de políticas econômicas eficazes, a tentativa de se reverter este quadro recessivo enfrenta a resistência de integrantes do próprio governo, pois consideram que a redução de gastos públicos não resolverá o problema. Ora, sem equilíbrio fiscal não há economia que se sustente no longo prazo e, mesmo assim, adeptos de anacrônicas cartilhas vermelhas insistem em ignorar a realidade em nome de utopias.
Não é por acaso que a capacidade do Brasil em atrair investimentos externos também vem sendo questionada devido ao seu risco de inadimplência. Como consequência, os títulos brasileiros lançados no mercado internacional tendem a pagar taxas maiores para que consigam captar novos recursos, agravando o nível de endividamento.
No momento, toda a atenção presidencial está voltada ao pedido de impeachment elaborado, inclusive, por um dos fundadores do PT, o jurista Hélio Bicudo. Essa situação faz com que os esforços governistas sejam para se manter no poder, deixando para segundo plano o futuro econômico do país.
Diferentemente da posição adotada nos pedidos de impeachment que o próprio partido da presidente tomou parte contra governantes do passado, como Fernando Collor, agora Dilma Rousseff é quem tem que se defender e a estratégia adotada para a persuasão pública é o discurso de que se trata de um golpe político, ainda que previsto constitucionalmente.
Um dos principais motes de Hélio Bicudo é o crime de responsabilidade fiscal, evidenciado nos casos em que houve o financiamento direto do governo por bancos públicos.
A justificativa da presidente para o crime fiscal é de que necessitava desembolsar as transferências para programas sociais. Mas se faltou dinheiro para esses pagamentos foi porque ele foi gasto em outras coisas, não é mesmo? Assim, não se trata de uma justificativa virtuosa, porém uma demonstração de planejamento incorreto e uso ineficiente e irresponsável de recursos. Mais uma vez a relevância orçamentária vem à tona e corrobora com a urgência de que esse assunto não seja tratado como simples ajuste técnico de planilhas.    
O futuro econômico deste país depende, dentre outras variáveis, da seriedade com que o orçamento público seja construído seguindo-se a noção básica de que só se deve gastar aquilo que se tem. Que falácias ideológicas e o desculpismo oportunista deixem de servir de base para crimes fiscais.

* Economista. Pós-doutor pela Universidade de Salamanca (Espanha). Professor da Unicamp.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Manobra fiscal irregular do Governo


Ministério Público considera crime manobras fiscais do governo federal

por Dimmi Amora – Folha de S.Paulo

As manobras fiscais realizadas pelo Tesouro Nacional com bancos públicos federais, conhecidas com 'pedaladas', foram consideradas crime e os responsáveis devem ser investigados.
É o que aponta relatório do procurador Julio Marcelo de Oliveira, do Ministério Público junto ao TCU (Tribunal de Contas da União), que recomendou aos ministros do Tribunal o envio de cópia da investigação do órgão sobre essas manobras para que os procuradores criminais do Ministério Público Federal tomem providências necessárias para apurar a conduta de ministros, servidores e presidentes de bancos estatais.
A votação do processo das pedaladas está marcada para esta quarta-feira (8) e os ministros podem manter o entendimento da área técnica e do ministério público ou modificá-lo.
O entendimento dos técnicos do tribunal e do procurador é que dirigentes do Ministério da Fazenda, da Caixa, do Banco do Brasil e do BNDES descumpriram o artigo da LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) que proíbe que bancos emprestem dinheiro a seus controladores. A Caixa e o BNDES são controlados pelo governo federal e não poderiam fazer empréstimos.
Para eles, desde 2009, o governo deixou de repassar a bancos públicos R$ 40 bilhões de verbas ao BB, Caixa e BNDES para pagamentos de despesas com o seguro-desemprego, Minha Casa, Minha Vida, Bolsa-família, crédito agrícola, PSI (Programa de Sustentação de Investimentos), entre outros. Esses bancos tiveram que pagar os compromissos com recursos próprios enquanto o dinheiro do governo não chegava, o que constitui um empréstimo, segundo o entendimento dos técnicos do TCU e do Ministério Público do órgão.
Como esses empréstimos são vedados pela LFR, eles também entenderam que houve crime de responsabilidade. Mas os crimes fogem da responsabilidade de apuração do TCU e, por isso, há a recomendação para que o MPF analise se investiga a manobra ou não.
A LFR prevê que, quem descumprir seus artigos, seja processado por Crime de Responsabilidade, que prevê a perda do cargo por até cinco anos, pagamento de multa entre outras punições. Além disso, os responsáveis também podem ter que responder por ato de improbidade, que prevê a devolução dos recursos que tenham sido desviados.
As manobras tinham o intuito de manter um superávit primário artificial na gestão passada da presidente Dilma Rousseff e foram abandonadas com a chegada do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em janeiro deste ano. A AGU (Advocacia-Geral da União) vem defendendo a tese de que não houve empréstimos.
Outra determinação do TCU que será analisada pelos ministros é a de que o Banco Central contabilize os R$ 40 bilhões como dívida pública, mudando os valores da dívida federal do ano passado.

OUTROS ATRASOS

Além dos atrasos referentes a programas que contavam com subsídios do governo federal, os técnicos também identificaram 'pedaladas' do Tesouro com recursos que deveriam ir para o INSS pagar aposentados e que deveriam ter sido repassados para os estados e municípios como compensação pela exploração de petróleo e para custear a educação básica.
Segundo o relatório, esses atrasos prejudicaram os estados e municípios já que reduziram suas receitas e, com isso, tornaram ainda menores os repasses da União para eles porque a divisão dos recursos federais é calculada de acordo com a receita de cada ente federativo.
Em relação a essas verbas, contudo, não foram determinadas mudanças na contabilidade e nem investigações do MPF. Mas o ex-secretário do Tesouro, Arno Augustin, terá que prestar esclarecimentos ao TCU.
Além de Arno, o ministro do TCU José Múcio deverá acatar a recomendação dos técnicos e do MP de ouvir mais 13 autoridades do governo passado, entre eles o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho (que permanece no cargo) e o ex-secretário de Política Econômica da Fazenda, Nelson Barbosa (atualmente Ministro do Planejamento).
Caso o processo seja aprovado na quarta-feira, eles terão 15 dias para apresentar defesa pessoal em relação às irregularidades apontadas. Se as justificativas deles não forem aceitas pelos ministros, o TCU poderá multá-los e, se ficar comprovado que houve prejuízo ao erário, eles também podem ter que recompor os danos.
Em relação ao Crime de Responsabilidade, o Ministério Público Federal também terá que considerar que houve os empréstimos e apontar quem são os responsáveis pelo ato e iniciar um processo na Justiça que poderá ou não levar os responsabilizados à condenação.
O BNDES informou que o presidente não falaria sobre o tema. O Ministério da Fazenda informou que "o Tesouro Nacional não foi notificado formalmente pelo TCU". O Ministério do Planejamento e a Advocacia-Geral da União não responderam até o fechamento desta edição.