segunda-feira, 6 de julho de 2015

Imagine - Greek Version


IMAGINE
(Greek version)

Imagine there's no debt
It's easy if you try
No creditors charging us
Above us only sky
Imagine all the Greek people
Living only for today

Uh hu uhuhuuu

Imagine there will be no tomorrow
It isn't hard to do
Nothing to buy or sell here
And no money too

Imagine all the people
Living by begging

Uh hu uhuhuuu

You may say, I'm deceived
But I'm not the only one
61% of people are with me
And the Drachma will be back soon

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A tragédia que não é só grega


A tragédia que não é só grega

Marco Milani*

Publicado no Jornal Correio Popular (Campinas), 02/07/15, p. A2

Os mercados financeiros do mundo sentem os reflexos da difícil situação econômica grega, uma vez que é a moeda comum, adotada por 19 países europeus, que será afetada diretamente pelo desenrolar dos fatos.
A deterioração das contas nacionais não é um fenômeno recente. Nos últimos cinco anos o Produto Interno Bruto da Grécia recuou cerca de 25%, aliado aos aumentos significativos da dívida pública e da taxa de desemprego. Os últimos pacotes de auxílio econômico recebidos estavam condicionados ao esforço de ajustes fiscais necessários, porém com forte resistência popular.
Em 2015, a Coligação da Esquerda Radical venceu as eleições ao governo grego baseada em promessas socialistas que se distanciam, em muito, da realidade. Não é possível recuperar a economia do país e permanecer na Zona do Euro sem cortes profundos nos gastos públicos e isso segue a óbvia noção de que não se pode continuar gastando mais do que se arrecada.
Na lógica socialista do primeiro-ministro Alex Tsipras, entretanto, isso é ilusoriamente possível. Basta os credores continuarem emprestando sem garantia alguma de que receberão esse dinheiro de volta. Se os credores se recusarem a fornecer novos empréstimos, então estará caracterizado que eles são opressores capitalistas que querem prejudicar o povo grego.
Para não assumir a inviabilidade de suas promessas de campanha, Tsipras transfere a responsabilidade de se continuar ou não na Zona do Euro à população por meio de um referendo.
Na história, é comum que países enfrentem crises econômicas e procurem solucioná-las escolhendo caminhos nem sempre semelhantes entre si, experimentando erros e acertos. Os diversos planos econômicos que tivemos no Brasil na década de 1980 até chegarmos ao Plano Real, em 1994, são exemplos gravados na memória de muitos cidadãos.
Em todas as soluções, porém, está presente o componente político. Caso a orientação ideológica dos líderes do Governo não favoreça a adoção de medidas racionais e viáveis, então o discurso fantasioso e populista agravará ainda mais o problema e servirá de justificativa para medidas intervencionistas na economia.
O desafio a ser enfrentado pelo atual governo grego é o reconhecimento de que sem a austeridade fiscal a situação ficará pior, pois não haverá recursos externos para suprir as próprias necessidades internas. Portugal e Irlanda vivenciaram, recentemente, momentos em que também tiveram que optar por um futuro economicamente mais equilibrado por meio de ajustes fiscais no curto prazo.
A contradição entre o utópico e o real insiste em desnudar propostas calcadas em modelos sociais economicamente inviáveis.
Se a Grécia não participasse da Zona do Euro, certamente sua crise teria repercussão bem menor nos integrados mercados financeiros do planeta. Tal situação, entretanto, serve de alerta para todos os países que elegem governantes baseados em falaciosos discursos sociais descomprometidos com os fundamentos econômicos e que tentam culpar, de maneira escapista, o ambiente externo pelos problemas internos.

* Economista. Pós-doutor pela Universidade de Salamanca (Espanha). Professor da Unicamp.


Fonte: Jornal Correio Popular, 02/07/15, p. A2

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Brasil sem rumo - pela ex-petista Marta Suplicy


Brasil sem rumo

Marta Suplicy

Folha de S. Paulo 26/06/15 – p.A2

Degringolou. Quem leu as notícias desta semana percebeu que a forma como a economia descarrilhou não tem mais "Judas" ou Cristo que dê jeito. A falta de credibilidade da presidente, a desmoralização das lideranças do PT e do governo se consolidou e a tragédia econômica para os brasileiros é real.
Que o Brasil estava em dificuldades já se percebia antes das eleições. O que ninguém esperava era esse mergulho, sem freio, e a aceleração irresponsável na escuridão da recessão.
No momento em que o Banco Central revisa a projeção para a inflação de 2015 de 7,9% para 9% e temos a notícia que a estimativa do PIB passou de 0,5% para retração de 1,1%, é nítido que estes resultados são consequência dos últimos anos do governo Dilma e já indicam que o fundo do poço ainda está longe. O fundo não dá nem para ver. As expectativas se evaporaram. E no mundo da economia é o "acreditar" que vale. Não se percebem sinalizações positivas em nenhuma área.
Em maio, a indústria nacional fechou mais de 60 mil postos de trabalho. Na Bahia, a Ford colocou em interrupção temporária de trabalho seus 3.000 empregados e todas as montadoras do ABC planejam férias coletivas para julho.
Desde janeiro as grandes redes fecharam 45% a mais de empregos com carteira assinada do que no mesmo período do ano passado.
O fator mais perverso da política econômica de aplicação açodada e que já resvala para o messianismo do "vai melhorar" é o emprego que já conta com 43% a mais de vagas fechadas, número do Cadastro Geral de Empregos. Estudiosos apontam para taxa de desemprego de 9% até dezembro. Com isso, a intenção de consumo das famílias recuou 23,8% em menos de um ano.
A intenção de investimentos dos empresários, apurada pela CNI, andou para trás em 35%. Os estoques já chegam a 36,5% da produção.
A inadimplência nas contas de luz saltou 13,9% em maio em relação ao mesmo mês de 2014. Não se vislumbra melhora –o BC já corrigiu para 43%, o percentual de aumento na energia até o fim do ano.
A Selic aumenta sem parar, e o Banco Central anuncia que a taxa de juros do crédito atingiu 57,3%. Recorde. A arrecadação de impostos está no mesmo nível que se tinha em 2003. Lá se foram 12 anos.
O Ipea aponta que estamos no pior momento da economia nos últimos anos. Não se sabe quando sairemos do atoleiro no qual a presidente Dilma nos colocou. "Os volumes mortos", como diz Lula, podem se abraçar e admirar a obra.
Poderiam ter o bom senso de fazerem o "mea culpa" e permitirem que um novo momento se instale e nos atrele a outro rumo. O Brasil clama por uma perspectiva que aponte um novo caminho a seguir.



quinta-feira, 25 de junho de 2015

Greece could be forced to lock down savers’ cash


Greece could be forced to lock down savers’ cash as debt crisis worsens

Athens could impose capital controls, limiting the amount that savers can withdraw from their accounts and curbing transfers of money overseas

Greece’s central bank has issued the clearest warning yet that the country is on course to default on its sovereign debt at the end of the month and crash out of the single currency, while finance ministers across Europe also confirmed they are making contingency plans for a messy ending to the crisis.
Athens is due to repay €1.6bn to the International Monetary Fund on 30 June but will be unable to do so unless its creditors release a €7.2bn bailout payment before then.
Talks between Greece and its eurozone and IMF creditors over a “cash-for-reforms” deal have stalled, with the country’s Prime Minister, Alexis Tsipras, accusing the creditors of “pillaging” the country over the past five years.
“Failure to reach an agreement would …mark the beginning of a painful course that would lead initially to a Greek default and ultimately to the country’s exit from the euro area and, most likely, from the European Union,” the Bank of Greece said in a statement.
“Striking an agreement with our partners is a historical imperative that we cannot afford to ignore,” it added.
The central bank said some €30bn in deposits have fled the Greek financial system since last October as Greek savers shift their money ahead of a possible exit from the euro.
The German Finance Minister, Wolfgang Schäuble, told a parliamentary hearing in Berlin that his government is making contingency plans in the event of Grexit.
“We are prepared for all eventualities” said the Dutch Finance Minister, Jeroen Dijsselbloem, in the Hague. The Chancellor, George Osborne, also confirmed that the UK has stepped up planning to deal with the economic fallout.
If Greek defaults, the European Central Bank could cut off its support to the Greek financial system, forcing Athens to impose capital controls, limiting the amount that savers can withdraw from their accounts and curbing transfers of money overseas. When imposed in other countries, such controls have prompted queues outside bank branches as people try to remove as much cash as possible, and wider turmoil in financial markets as foreign investors realise they cannot pull their money out.
It would be a short step from there to Greece imposing its own parallel currency and becoming the first country to exit the eurozone since it was established in 1999.
However, an EU official said that non-payment to the IMF on 30 June by Greece might not be deemed a technical default, suggesting creditors might be preparing to create more time for the two sides to reach a deal.
In a sign of how relations have collapsed, the President of the European Commission, Jean-Claude Juncker, accused Athens of effectively lying to its own people about reforms being pushed by Brussels. “I am blaming the Greeks [for telling] things to the Greek public which are not consistent with what I’ve told the Greek Prime Minister,” he said.
However, The Austrian Chancellor, Werner Faymann, struck a more conciliatory tone in Athens. “For Europe to be stronger, it must show solidarity and support to any country which needs it” he said during a meeting with the Greek President Prokopis Pavlopoulos. For his part, Mr Tsipras said he was prepared to say “the great no” if that was what was necessary to prevent the continuation of their “catastrophic” austerity policies he Eurogroup of finance ministers is set to meet in Luxembourg in what had previously been billed as Greece’s last chance to secure a deal. Now officials are reported to be preparing for an emergency summit of eurozone heads on 21 June.
The Bank of Greece spelled out how economically disastrous it would be domestically if the country left the euro. “All this would imply deep recession, a dramatic decline in income levels, an exponential rise in unemployment and a collapse of all that the Greek economy has achieved over the years of its EU, and especially its euro area, membership,” it said.
“From its position as a core member of Europe, Greece would see itself relegated to the rank of a poor country in the European South.”.




domingo, 21 de junho de 2015

Na mira do chefe


Na mira do chefe

por Dora Kramer – O Estado de S.Paulo

Degrau a degrau, a Operação Lava Jato chegou ao topo da cadeia alimentar dos negócios das empreiteiras dentro da Petrobrás ao determinar as prisões dos presidentes das construtoras Odebrecht e Andrade Gutierrez, sob a justificativa de que ambos tinham pleno conhecimento de todo o esquema de pagamento de propinas na estatal.
Conclusão semelhante à que chegou por maioria o Supremo Tribunal Federal, durante o julgamento do mensalão, ao recorrer à teoria do domínio do fato para estabelecer que o ministro­chefe da Casa Civil do governo Luiz Inácio da Silva, José Dirceu, tinha pleno conhecimento do sistema montado com agências de publicidade, bancos e empresas públicas para comprar apoio político ao governo.
O STF sofreu críticas e acusações de arbitrariedade. Agora, como se vê, se algum pecado houve naquele processo, não foi por excesso de rigor. Antes, talvez, por omissão de “dominadores” e beneficiários dos fatos.
Mas as investigações prosseguem, avançam e já desmontam ao menos uma tese: a de que as empreiteiras foram vítimas dos políticos. Por essa teoria, a exigência do pagamento de propinas seria uma imposição resultante da “parceria” entre governantes e parlamentares e a única maneira de as construtoras (não só elas, diga­se) fazerem negócios com o Estado.
Embora seja verdade, é apenas meia verdade. Não há vítimas nem algozes nessa história. Apenas cúmplices. Para que as empreiteiras façam os negócios que estão sendo revelados, é preciso que os detentores do controle da máquina do Estado abram espaço a elas e permitam que a clientela amiga sirva­se à vontade.
Por isso mesmo há em Brasília a mais plena certeza de que os políticos não escapam. A hora deles chegará. No Supremo, para os que têm o chamado foro privilegiado ou para os que já não podem contar com ele e que porventura tenham aparecido nas delações premiadas sob a jurisdição do juiz Sérgio Moro.
Do mesmo modo que os chefes das grandes empreiteiras obviamente sabiam de tudo o que se passava, a chefia, ou as chefias, do núcleo político – vale dizer, o governo e seus aliados no Parlamento – detinham o perfeito domínio sobre todos os fatos.
A maneira como as investigações vêm sendo conduzidas indicam que o desmonte é só uma questão de tempo. E as excelências todas já se deram conta disso. De onde está havendo em Brasília um movimento de retorno ao interesse pela ação política em detrimento dos negócios. Puro instinto de sobrevivência.
O ativismo legislativo é um sinal. Deputados e senadores que sempre deram mais importância às vontades do Planalto – por décadas – de súbito tornaram-se adeptos da independência. Ora, ora, uma explicação deve haver para tal mudança. Certamente não é a de que baixou o santo do espírito público de uma hora para outra.
Baixou, isto sim, a certeza de que nada será como antes. Políticos têm faro apurado. Daí tanta valentia, tanto enfrentamento como nunca se viu do Legislativo em relação ao Executivo. Políticos têm faro apurado, sabem para onde sopram os ventos.
E nesse momento procuram se reposicionar diante da opinião pública. Se formos examinar, o fenômeno atinge todas as instituições que, finalmente, procuram – umas mais, outras menos – falar à sociedade.



segunda-feira, 15 de junho de 2015

A hipocrisia ideológica na academia


Da missa a metade*

Luiz felipe Pondé

Tenho acompanhando a polêmica da PUC e a proibição da cátedra Foucault. Mas, se formos falar da liberdade de pensamento que a universidade supostamente defende (e que foi apontada pelos colegas que criticaram a PUC duramente), não me parece que o assunto seja tão simples. E não me refiro apenas a universidades ligadas a instituições religiosas. As públicas também caçam suas bruxas.
Numa frase: não existe liberdade de pensamento na universidade. Isso é uma falácia. A universidade corre o risco de virar um celeiro de crenças ideológicas, vendidas aos alunos como "saber".
Esta suposta liberdade de pensamento, que oporia aqui a Igreja Católica a uma universidade livre, é matéria de dúvida para qualquer um que conheça a realidade universitária. Não existe liberdade de pensamento na universidade e a igreja está longe de ser o maior ator em termos de "censura".
Voltemos ao contexto: a Igreja Católica proibiu a instalação de uma cátedra Foucault na PUC. Cátedras são instrumentos de poder na universidade. Uma cátedra significa a difusão de uma visão de mundo. E de verbas, claro.
Levantemos alguns cenários sobre o tema da liberdade na universidade. A afirmação de que existe uma universidade livre, sendo "oprimida" por instâncias religiosas (no caso específico da PUC ), "não é da missa a metade" quando falamos de "censura" à liberdade de ação na academia em geral. Sim, limites teológicos para o conhecimento são ruins mesmo, concordo. Mas, a universidade está longe de ser uma instituição livre, por causas internas à própria máquina acadêmica.
Primeiro cenário. Muitos dos que criticaram a PUC em nome de uma universidade secular e aberta, suspeito, não resistiriam a questões como: que tal fundar uma cátedra Edmund Burke em política em algum departamento de filosofia? Ou Michael Oakeshott? Ou Isaiah Berlin? Ou Leo Strauss? Esses mesmos que berram em nome da liberdade usariam falsos adjetivos como "reacionários" para esses autores (o que é pura má fé ou ignorância pura e simples).
Por que esses autores quase não existem em nossos departamentos de filosofia? Pesquisas sobre autores como esses podem custar a carreira de jovens filósofos. Logo, discordância ideológica é "censura" na universidade.
Segundo cenário. Imagine uma professora X, muito produtiva e reconhecida. Agora imagine que ela quisesse fundar uma cátedra são Tomás de Aquino numa universidade católica. Provavelmente, ela teria a bênção da igreja. Mas, nem por isso, o caminho dela estaria aberto.
Caso ela tivesse desafetos dentro da instituição, provavelmente, teria seu caminho para a cátedra impedido por jogos políticos nos órgãos colegiados. Uma penca de instrumentos "legítimos" seria jogada sobre ela para que não realizasse seu propósito. Mesmo atividades como colóquios e similares poderiam ser inviabilizadas (sempre por meio de mecanismos "legítimos"). Logo, desafetos políticos são uma forma de "censura" na universidade.
Terceiro cenário. Quantas vezes professores já tiveram suas aulas invadidas por grupos autoritários que se dizem "pela liberdade"? No âmbito dos movimentos estudantis, desde muito tempo, a liberdade de pensamento é uma senhora caçada a pauladas. Bullying ideológico é um fato entre os estudantes.
Quarto cenário. O caso da Federal de Santa Maria, que pediu uma lista de docentes e discentes israelenses ligados à instituição. Como não ver o bom e velho antissemitismo por trás da investida de buscar identificar uma lista de pesquisadores israelenses ligados à instituição?
Cadê os "indignados" de plantão? Ou a suposta "causa palestina" justifica a discriminação de israelenses/judeus no Brasil? A parceria entre grupos estrangeiros e grupos locais a fim de perseguir israelenses é "justa" para os "indignados"? Aliás, movimentos estudantis e acadêmicos foram agentes essenciais nos governos fascistas.
Vemos, assim, que "instituições do saber", muitas vezes, são agentes importantes na disseminação de "censura" política. Pergunto: na universidade, quem tem moral para posar de paladino da liberdade?

*  Publicado no jornal Folha de S.Paulo – 15/06/15 – p. C8)




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Opressão soviética a artistas é narrada em tragicomédia


Opressão soviética a artistas é narrada em tragicomédia

Espetáculo retrata um encontro fictício, em 1948, entre Josef Stálin, seu secretário e dois compositores russos

Maria Luísa Barsanelli – Folha de S.Paulo – 22/05/15 – p. C8

Nos anos 1970, o dramaturgo britânico David Pownall leu o relato de um correspondente da rede BBC sobre a conferência de músicos da União Soviética em 1948, em Moscou. Achou na descrição um misto de terror e graça.
"Ler os relatos me fez rir de um jeito aterrorizado e maravilhado, mas estranhamente puro, como a essência do absurdo", diz à Folha o dramaturgo. A conferência era uma ferramenta do governo totalitário soviético para controlar a produção artística.
Em pesquisas e viagens à Rússia, Pownall ouviu rumores de que, em seu governo, Josef Stálin teria oferecido aulas de piano ao então já famoso compositor Sergei Prokofiev.
Os eventos inspiraram "Master Class" (1982), peça do dramaturgo que ganha a primeira adaptação brasileira, sob o nome de "Aula Magna com Stálin", com tradução e direção de William Pereira.
O texto narra um encontro fictício, às vésperas da conferência de músicos, entre Stálin (Jairo Mattos), o secretário Andrei Jdanov (Luiz Damasceno), Prokofiev (Carlos Palma) e o compositor Dimitri Chostakóvitch (Felipe Folgosi).
No primeiro ato, Stálin e seu comparsa massacram os compositores, fazem um terror psicológico e tentam convencê-los de que sua arte precisa se alinhar aos interesses do Estado. "Eles são os experts em música, mas nós somos os filósofos", diz em cena o ditador. "Esta é a questão: como colocar nossas ideias na cabeça deles."
Após o intervalo, o jogo se inverte, e o drama dá lugar ao cômico e ao absurdo. Prokofiev e Chostakóvitch passam a manipular os políticos e compõem uma música pitoresca em ode ao regime: "Meu coração amargurado/ é um caravançarai [tipo de estalagem]".
"O primeiro ato é um ritual de humilhação. O segundo, a vitória do oprimido", diz Pereira. "É uma virada sutil. A peça abrange muitas questões políticas sem ser maniqueísta. Você vê os problemas do governo, mas também as contradições dos compositores."
Prokofiev e Chostakóvitch representam instâncias distintas da arte russa daquela época. Enquanto o primeiro já era consagrado, o segundo, mais jovem, era o artista "a ser doutrinado", afirma o diretor.
O ditador russo tinha uma "birra" com a individualidade do artista. Pregava que a arte tinha que ser coletiva. "A música soviética antes do Stálin tinha um florescimento, um experimentalismo", comenta o encenador. "Com ele, a criação se volta para o folclórico e o nacionalista."
A música, além de tema, permeia toda a encenação. Um piano de cauda, tocado diversas vezes pelos personagens, ocupa parte do cenário, que representa uma repartição pública, um departamento no qual o governo mantém controle da produção artística.

AULA MAGNA COM STÁLIN
QUANDO qua. a sex., às 20h; até 3/7
ONDE CCBB, r. Álvares Penteado, 112, tel. (11) 3113-3651/3652
QUANTO R$ 10
CLASSIFICAÇÃO 16 anos