sábado, 10 de janeiro de 2026

São os livre-comerciantes materialistas ou são os protecionistas?

São os livre-comerciantes materialistas ou são os protecionistas?

 

Donald J. Boudreaux • 9 de Janeiro de 2026

 

“A afirmação de que o protecionismo serve a fins superiores apoia-se numa confusão tanto sobre economia quanto sobre os objetivos não econômicos que as pessoas realmente valorizam."

 

 Recentemente, no Facebook, compartilhei meu texto no Café Hayek intitulado “Bens mais baratos são uma bênção, não uma maldição”. Introduzi o compartilhamento com este comentário: “O protecionismo é a teoria segundo a qual 10+2=6 e 10−2=16. E os protecionistas defendem orgulhosamente essa teoria, felizes em nos descartar como ‘elitistas’, ‘especialistas’ ou ‘globalistas’ quando apontamos que 10+2=12 e que 10−2=8.”

Naturalmente, minha descrição do protecionismo não é literalmente verdadeira. Mesmo assim, ela captura adequadamente sua essência, que é a crença bizarra de que uma maior abundância de bens e serviços disponibilizados a partir de fontes externas às fronteiras nacionais reduz a oferta de bens e serviços disponíveis à população doméstica, enquanto políticas que diminuem essa abundância externa aumentariam a oferta interna.

Deixando de lado a exceção da segurança nacional no caso do livre comércio, essa impossibilidade aritmética é o que 90 por cento do protecionismo revela ser, quando despido da linguagem vaga e enganosa normalmente usada para mascarar sua natureza. Tarifas e outras intervenções protecionistas são vendidas como meios de criar mais empregos e salários maiores (o que reverteria o suposto aumento do “custo de prosperar”), de pavimentar caminhos para o desenvolvimento das “indústrias do futuro”, de arrecadar elevadas receitas tributárias de estrangeiros, de tornar a economia mais competitiva e, de modo geral, de fortalecer a economia doméstica e melhorar o padrão de vida dos cidadãos comuns.

Como os eleitores gostam esmagadoramente de políticas que lhes prometem maior acesso a bens e serviços, protecionistas entendem bem a necessidade de alardear a suposta capacidade do protecionismo de entregar esses resultados. Mas e os 10 por cento restantes das tentativas de justificar o protecionismo (novamente, excetuando questões de segurança nacional)? Essas justificativas pretendem ser não materialistas e, portanto, presumivelmente mais elevadas e mais relevantes que as preocupações meramente econômicas. Esta é a postura, por exemplo, do senhor Kang Chen, que comentou em resposta ao meu post no Facebook: “Não. O protecionismo é a teoria de que existem coisas que importam além dos preços dos bens e serviços.”

Uma resposta fácil — e ainda assim correta e apropriada — a um comentário como o do senhor Chen é apontar que a imensa maioria das defesas do protecionismo promete melhoria do bem-estar material. Mais empregos. Salários maiores. Padrões de vida mais altos. Uma parcela maior de impostos paga por estrangeiros. Protecionistas como o senhor Chen seriam levados mais a sério se figuras como Donald Trump e Elizabeth Warren defendessem tarifas dizendo explicitamente: “As tarifas aumentarão significativamente, agora e no futuro, os preços dos bens e serviços que você e todas as famílias americanas compram regularmente. A maioria de vocês, portanto, verá seus salários reais cair e seu padrão de vida piorar. Mas não se preocupem. Seu padrão de vida mais baixo será mais do que compensado por benefícios não materiais.”

Nenhum político protecionista diz tal coisa. Em raras ocasiões, protecionistas afirmam triunfalmente que tarifas mais altas podem reduzir o acesso das pessoas a luxos caricatos como “bugigangas plásticas”, ou, como disse Donald Trump no ano passado, “talvez as crianças tenham duas bonecas em vez de trinta”. (Essas declarações procuram convencer os eleitores de que os custos econômicos do protecionismo são triviais frente a seus supostos benefícios.) Mas jamais políticos protecionistas fazem campanha declarando que tornarão as pessoas mais pobres como preço necessário para benefícios não econômicos.

Nada mais seria preciso para descartar a sugestão do senhor Chen de que o protecionismo, na prática, trata de sacrificar o bem-estar econômico em troca de fins superiores. Mas há mais a dizer.

Pessoas como o senhor Chen acreditam que, ao insistirem que o protecionismo trata de mais do que “os preços dos bens e serviços”, estão distinguindo-se dos livre-comerciantes, que seriam movidos apenas por objetivos materialistas estreitos. O senhor Chen e companhia imaginam-se como nobres defensores da segurança no emprego, da família e do caráter das cidades e regiões, contra uma multidão de livre-comerciantes supostamente materialistas e superficiais.

Mas o senhor Chen e companhia entendem profundamente mal o argumento em favor do livre comércio. Ele não promove o materialismo raso em detrimento de valores não econômicos importantes.

Em primeiro lugar, muitos — talvez a maioria — dos defensores do livre comércio, incluindo eu, o apoiam porque ele é consistente com a liberdade individual, ao passo que o protecionismo é uma violação dessa liberdade. Mesmo que o livre comércio, de alguma forma, reduzisse o padrão de vida material, eu e muitos outros ainda o defenderíamos pelo seu valor não econômico maior, que é a liberdade. É justo que o senhor Chen e outros protecionistas não valorizem tanto a liberdade individual quanto nós, livre-comerciantes. Mas é injusto e errado acusar-nos de valorizar apenas o enriquecimento material.

Em segundo lugar, todos os motivos da ação econômica são, em última análise, não monetários (isto é, ninguém acumula dinheiro apenas por acumular). Alguns desses motivos são materiais em sentido estrito e podem ser chamados de materialistas: todos precisam comer, morar e se vestir. E alguns desses motivos materialistas são grosseiros, superficiais ou mesmo desprezíveis: Joe usa parte de sua renda para se embriagar nas noites de sexta, enquanto Janet alimenta máquinas caça-níqueis. Mas outros desses motivos não são materialistas em sentido estreito: Jane gasta parte de sua renda em aulas de piano para os netos; Jerry doa parte de seus rendimentos ao teatro infantil da comunidade e usa outra parte para melhorar seu aprendizado e o de sua esposa assinando o podcast The Rest Is History. Como o livre comércio amplia as oportunidades para todas essas coisas, é errado sugerir que sua defesa se restringe a gratificações materiais ou sensoriais.

Em terceiro lugar, quase todos os supostos benefícios não materialistas do protecionismo são, na realidade, benefícios materialistas.

Considere, por exemplo, segurança no emprego. Ela é valorizada em grande parte porque um emprego seguro significa um fluxo de renda seguro. Se a segurança no emprego fosse realmente um objetivo não econômico que sobrepuja o bem-estar material, trabalhadores que a priorizam poderiam aumentar muito a segurança de seus empregos oferecendo cortes significativos em seus salários. No entanto, tais ofertas raramente ocorrem. Defender o uso do protecionismo para aumentar a segurança no emprego em setores protegidos é defender que outros cidadãos paguem o custo econômico de tornar esses empregos mais seguros.

É admirável ter objetivos não econômicos. Mas é deplorável forçar outras pessoas a subsidiar a realização desses objetivos, e é hipócrita acusar quem se opõe a esse subsídio de ser excessivamente materialista. Se há algum grupo materialista nesse debate, são os trabalhadores protegidos e os protecionistas que os defendem. Esses protecionistas jamais se perguntam quais objetivos não econômicos seus conterrâneos deixam de perseguir por causa dos preços artificialmente elevados pelas tarifas. Quanto lazer perde uma mãe trabalhadora? Quanto se reduz o orçamento educacional de uma família? Quanto cuidado médico outra família precisa adiar? Por quantos anos o pai posterga a aposentadoria?

Se protecionistas estão à procura de pessoas materialistas e cegas aos objetivos não econômicos da vida humana, deveriam olhar para o espelho.

 

* Donald J. Boudreaux é pesquisador sênior associado no American Institute for Economic Research e integrante do Programa Hayek de Estudos Avançados em Filosofia, Política e Economia no Mercatus Center da George Mason University. É membro do conselho do Mercatus Center e professor de economia, tendo sido também chefe do departamento. É autor de The Essential Hayek, Globalization, Hypocrites and Half-Wits, e seus textos aparecem no Wall Street Journal, New York Times, US News & World Report, entre outros periódicos acadêmicos. Mantém o blog Café Hayek e escreve coluna regular no Pittsburgh Tribune-Review. Possui doutorado em economia pela Auburn University e título em Direito pela University of Virginia.

 

Fonte: https://thedailyeconomy.org/article/are-free-traders-materialistic-or-protectionists/

 

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